Abade Suger (Chennevières-lès-Louvres, 1080 – Saint-Denis, 13 de janeiro de 1151) foi abade de Saint-Denis (França), desde 1122 até sua morte. Hábil diplomata, foi conselheiro de Luís VI e de Luís VII e Regente durante a Segunda Cruzada. Foi chamado, segundo Erwin Panofsky, de "o pai da monarquia francesa".
Em sua monografia sobre Suger, Panofsky defende a tese de que este tenha sido muito influenciado pela leitura das obras de Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Suger teria encontrado naquelas obras “uma justificação filosófica para toda a sua atitude com respeito à vida e à arte” e consequentemente, para as intervenções arquitetônicas que realizou, ao conceber o monumento como obra teológica.
O Abade Suger, informa-nos Panofsky, ainda, "professava como téologo, proclamava como poeta, e praticava como patrono das artes e organizador de espetáculos litúrgicos", a abordagem anagógica, (o método que leva para cima) no sentido empregado pelo Pseudo-Areopagita, posteriormente revigorado por Duns Scot.
É considerado o primeiro mestre-de-obras da arquitetura gótica, pelas inovações promovidas na Basílica de Saint-Denis, entre as inovações pode-se destacar: fachada com nova extensão com três portas e duas torres, coro e corredores laterais (em 1144). Suger se inspirou no livro Apocalipse, e quis recriar a ideia de paraíso terrestre na Basílica, para isso utilizou de alegorias, simbolismo, transparência e luz, refletindo a ordem universal e a imagem da Nova Jerusalém.
Suger escreveu várias obras, que são conceituadas pela sua precisão e detalhe. Destas, duas registam as suas atividades como abade de St-Denis. O Libellus Alter de Consecratione Ecclesiae Sancti Dionysii (Outro Pequeno Livro sobre a Consagração de Saint-Denis) é um curto tratado sobre a construção e consagração da igreja abacial. O Liber De Rebus in Administratione sua Gestis (Livro sobre os Atos sob a sua Administração) é um relato inacabado da sua administração da abadia, que começou a pedido dos seus monges em 1145. Nestes textos, ele aborda as melhorias que fez em St Denis, descreve o tesouro da igreja e faz um relato da reconstrução. Ao contrário de outros textos medievais que registam os feitos de figuras religiosas, os de Suger são escritos por ele próprio.
Das suas histórias, Vie de Louis le Gros (Vida de Luís, o Gordo) é a sua obra mais substancial e amplamente divulgada. É uma narrativa cronológica panegírica do Rei Luís VI, focada principalmente na guerra, mas também na sua dependência da abadia de Saint-Denis. Historia gloriosi regis Ludovici (O Ilustre Rei Luís) é a outra obra demonstradamente inacabada de Suger, relatando o primeiro ano do reinado de Luís VII. Escrita nos anos finais de Suger, ela (como a sua outra história) cobre em grande detalhe eventos onde Suger esteve presente ou envolvido.
O secretário de Suger, Guilherme, produziu duas obras sobre Suger: a primeira, uma carta pouco depois da sua morte anunciando o falecimento; a outra, uma curta biografia (Sugerii Vita; A Vida de Suger) de autoria entre 1152 e 1154. Uma coleção de cartas de Suger existe em Saint Denis, a maioria de perto do fim da sua vida, embora a sua proveniência seja desconhecida. As obras de Suger serviram para incutir nos monges de St Denis o gosto pela história e deram origem a uma longa série de crónicas quase oficiais.
Suger é considerado o precursor da arquitetura gótica (francesa), onde na sua história se insere no período do Gótico Inicial (Gothique primitif) concentrado na região da Île-de-France, em França. Este género é visto como a progressão da arquitetura românica, embora poucos dos elementos-chave que definem la tradição gótica fossem particularmente novos, uma vez que foram inspirados por estes mesmos elementos românicos, especialmente os da Normandia e da Borgonha. O elemento-chave que distingue a arquitetura gótica da sua predecessora é "a novidade da mensagem espiritual que deveria ser transmitida" através dos seus elementos "novos e antiromânicos".
Os estudiosos tendem a atribuir as influências de Suger nas suas ideias de simbolismo e modo de pensamento simbólico a interpretações de Pseudo-Dionísio, o Areopagita e aos derivados de João Escoto Erígena, bem como aos da escola de Chartres. Onde o historiador de arte do século XIX Erwin Panofsky afirma que a teologia de Pseudo-Dionísio influenciou o estilo arquitetónico da abadia de St. Denis, estudiosos posteriores argumentam contra uma ligação tão simplista entre a filosofia e a forma arquitetónica. Embora Suger não tenha deixado nenhuns escritos explicitamente teológicos, o seu trabalho em Saint Denis foi inspirado pelo seu próprio conjunto de ideias religiosas influenciadas por uma gama de novos ou renovados temas teológicos no contexto mais amplo da França do século XII. A influência da cosmologia da escola de Chartres, que resultou de interpretações de Platão e da Bíblia, criou um sistema especulativo que enfatizava a matemática, particularmente a geometria, e os resultados estéticos que surgem da convergência das duas.
Os historiadores de arte pintam a arquitetura gótica como a própria criação de Suger, embora alguns questionem isso. A suposição de autores franceses do século XIX de que Suger foi o "projetista" de St Denis (e, portanto, o "inventor" da arquitetura gótica) foi descartada por estudiosos recentes. Em vez disso, ele é geralmente visto como tendo sido um patrono audacioso e imaginativo que encorajou o trabalho de um mestre pedreiro inovador (mas agora desconhecido). É difícil contextualizar St-Denis face a outros edifícios da época e do lugar, porque muitas igrejas na França Capetiana entre 1080 e 1160 foram destruídas e/ou reconstruídas mais tarde, combinado com o facto de nenhum outro edifício deste período usufruir do nível de precisão e detalhe dos relatos de Suger sobre St-Denis. Assim, o estilo gótico pode ser visto como uma multiplicidade de tendências na arquitetura deste período, cruzando-se algumas ocasionalmente com outras: Jean Bony descreve-o como "um feliz acidente da história; teria sido infinitamente mais normal se o Gótico nunca tivesse aparecido."
Suger. "Liber de Rebus in Administratione sua Gestis". In: Abbot Suger, on the Abbey Church of St.-Denis and Its Art Treasures. Editado, traduzido e anotado por Erwin Panofsky (e Gerda Panofsky-Soergel). Princeton: Princeton University Press, 1946, pp. 40–81.
———. "Libellus Alter de Consecratione Ecclesiae Sancti Dionysii". In: Abbot Suger, on the Abbey Church of St.-Denis and Its Art Treasures. Editado, traduzido e anotado por Erwin Panofsky (e Gerda Panofsky-Soergel). Princeton: Princeton University Press, 1946, pp. 82–121.
———. "Ordinatio AD. MCXL vel MCXLI confirmata". In: Abbot Suger, on the Abbey Church of St.-Denis and its Art Treasures. Editado, traduzido e anotado por Erwin Panofsky (e Gerda Panofsky-Soergel). Princeton: Princeton University Press, 1946, pp. 122–137.
—–—. The Deeds of Louis the Fat (Vie de Louis le Gros). Traduzido por Richard C. Cusimano e John Moorhead. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1992.
———. Selected Works of Abbot Suger of Saint-Denis. Traduzido por Richard Cusimano e Eric Whitmore. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2018.
———. Selected Works of Abbot Sugar of Saint-Denis: Letters and Charters. Traduzido por Richard Cusimano, Eric Whitmore e Michael Bardot. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2026.
Guilherme (Willelmus). "The Life of Suger" (Sugerii Vita). In: Selected Works of Abbot Suger of Saint Denis. Traduzido por Richard C. Cusimano e Eric Whitmore. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2018, pp. 184–216.
Lecoy de La Marche, Albert (ed.). Oeuvres complètes de Suger; recueillies, annotées et publiées d'après les manuscrits. Paris, 1867. [Coleção de manuscritos completos em latim].