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André da Silva Gomes

Compositor brasileiro

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André da Silva Gomes (Lisboa, provavelmente 30 de novembro de 1752 – São Paulo, 17 de junho de 1844) foi um compositor, mestre de capela, organista e professor luso-brasileiro. Formado provavelmente no Real Seminário da Patriarcal de Lisboa, deixou Portugal aos 21 anos na comitiva do bispo Manuel da Ressurreição e chegou a São Paulo no início de 1774. Durante quase meio século, sua música acompanhou as missas, as Matinas, as Vésperas, a Semana Santa e as cerimônias solenes da antiga Catedral de São Paulo.

Gomes encontrou uma capela pequena, com poucos cantores e instrumentos, distante dos recursos musicais que conhecera em Lisboa. Reuniu e ensinou os moços do coro, copiou partituras, contratou instrumentistas e preparou música para cada parte do calendário católico. Suas composições, escritas para vozes, órgão e conjuntos instrumentais de diferentes tamanhos, formam o mais antigo repertório extenso composto em São Paulo que chegou aos arquivos. O catálogo temático de Régis Duprat distribuiu esse material em 130 números, entre missas, salmos, hinos, ofertórios, responsórios, Paixões e Te Deum.

Sua escrita passa da polifonia austera do estilo antigo a trechos concertantes, solos ornamentados e fugas para dois coros. As palavras orientavam as pausas, o movimento das vozes e a forma de cada peça. Gomes levou essa maneira de pensar a música para a Arte explicada do contraponto, tratado organizado em lições sobre composição, retórica e imitação de modelos. Fora da catedral, ensinou gramática latina por cerca de trinta anos, criou e educou jovens em sua casa, recebeu patente nas milícias e integrou o Governo Provisório de São Paulo como representante da literatura e do ensino público. Participou das decisões que antecederam a Independência do Brasil e regeu o Te Deum cantado na chegada de Dom Pedro à cidade em agosto de 1822.

Quando suas obras deixaram de soar regularmente na catedral, no início do século XX, as partituras permaneceram guardadas na Cúria Metropolitana e em arquivos de São Paulo, Campinas e outras cidades. A partir da década de 1960, o trabalho de Régis Duprat devolveu parte desse repertório aos intérpretes. Vieram as primeiras edições modernas, concertos e gravações dedicadas ao compositor. Grande parte de sua música ainda não recebeu edição ou registro integral, e alguns manuscritos chegaram incompletos ou sem autoria segura.

Primeiros anos e formação em Lisboa

André da Silva Gomes nasceu em Lisboa em 1752, filho de Francisco da Silva Gomes e Inácia Rosa. Seu assento de batismo encontra-se entre os registros paroquiais da freguesia de Santa Engrácia, guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Em 15 de dezembro daquele ano, Gomes foi batizado em casa, pois corria perigo de vida. Em 1.º de janeiro de 1753, seus pais o levaram à igreja para que recebesse os santos óleos na pia batismal. O escrivão escreveu "dezembro" ao indicar o mês dessa cerimônia, mas a posição do assento entre os registros vizinhos deixa claro que se tratava de janeiro.

O assento de batismo não informa quando Gomes nasceu. Uma necrologia publicada em 1844 deu 30 de novembro de 1752 como a data de seu nascimento. Nenhum documento conhecido da época informa outro dia. Como 30 de novembro é dedicado a Santo André no calendário católico, Paulo Castagna levantou a hipótese de que o nome tenha sido escolhido durante o batismo de emergência. A data é provável, mas não foi confirmada por um registro de nascimento.

Pouco se conhece sobre sua infância e seus primeiros estudos. Por volta de 1770, Gomes provavelmente frequentou o Real Seminário de Música da Patriarcal de Lisboa, onde teria estudado com o compositor José Joaquim dos Santos. O próprio Gomes chamou Santos de "nosso sábio e experimentado mestre" em sua Arte explicada de contraponto e escreveu que ele ensinava no Seminário da Patriarcal. O curso do seminário reunia canto, solfejo, acompanhamento e contraponto, preparando seus alunos para o trabalho nas capelas da corte e em outras igrejas.

Antes de deixar Portugal, Gomes teria trabalhado como organista em uma igreja franciscana de Lisboa. Uma notícia publicada em 1866 afirma ainda que ele pensava em ingressar entre os cônegos regrantes de Santo Agostinho. O texto não informa o nome da igreja, a data do cargo ou quanto tempo Gomes teria permanecido ali. Essa passagem de sua juventude permanece incerta.

O franciscano Manuel da Ressurreição, bispo eleito de São Paulo, convidou Gomes para assumir a música da catedral paulista. Com cerca de 21 anos, o músico deixou Lisboa na comitiva do prelado e atravessou o Atlântico rumo à América Portuguesa. Ele chegou a São Paulo antes de 19 de março de 1774, possivelmente no fim do ano anterior. Em 19 de março, quando Manuel da Ressurreição fez sua entrada solene na catedral, Gomes já ocupava interinamente o posto de mestre de capela da Sé.

Atuação na Catedral de São Paulo

Quando Manuel da Ressurreição fez sua entrada solene na Catedral de São Paulo, em 19 de março de 1774, Gomes já ocupava interinamente o posto de mestre de capela. Era o quarto músico a exercer o cargo na Sé paulistana. A igreja mantinha cantores desde meados do século XVII e já tivera outros mestres de capela, por isso não procedem as afirmações, difundidas no século XIX, de que Gomes teria sido o primeiro deles ou o criador do coro da catedral.

Seu antecessor, Antônio Manso da Mota, trabalhava como mestre de capela desde 1768 e dirigia a música da Casa da Ópera. Os mesmos profissionais podiam cantar ou tocar no teatro, nas igrejas e nas festas promovidas pela Câmara. Manso conhecia os intérpretes disponíveis na cidade e empregava violinos e outros instrumentos em suas apresentações. Sua música já era familiar ao público paulistano quando o novo bispo chegou com Gomes e procurou afastar das igrejas os músicos da ópera.

A mudança provocou uma disputa entre Manuel da Ressurreição e o governador Luís António de Sousa Botelho Mourão, o Morgado de Mateus. O bispo queria reservar a música das igrejas ao cantochão e à polifonia vocal acompanhada pelo órgão, seguindo o modelo usado na Patriarcal de Lisboa. O governador defendia Manso, cuja música instrumental era mais próxima do repertório ouvido na Casa da Ópera. Também contestava o direito do bispo de decidir sozinho quais músicos poderiam trabalhar nas igrejas.

Em uma carta escrita durante a disputa, o Morgado de Mateus afirmou que Manso fora impedido de trabalhar nas igrejas por ser "operário e mulato" e por compor "música de violinos". O governador negava que Manso fosse mulato e condenava o uso de sua possível ascendência como motivo para afastá-lo. A acusação vinha de um protetor de Manso e fazia parte de sua disputa com o bispo, mas expõe como a cor, a ocupação teatral e o lugar social de um músico podiam entrar nas decisões sobre os cargos eclesiásticos.

O primeiro confronto musical ocorreu poucos dias após a entrada do bispo. Na missa de 21 de março, Gomes utilizou partituras da Patriarcal para vozes e órgão, sem conjunto instrumental. Manuel da Ressurreição chamou coroinhas da cidade para completar as partes. O governador achou o resultado pobre e escreveu que os rapazes não tinham a voz, o estilo ou o conhecimento de solfa dos cantores de Lisboa. Também observou que o público estava acostumado à música da ópera. No dia seguinte, recebeu o bispo na Igreja do Colégio com os músicos de Manso, que cantaram o moteto Ecce sacerdos magnus com acompanhamento instrumental.

Gomes precisou ajustar o repertório aprendido em Lisboa aos cantores e instrumentos que encontrou em São Paulo. Reuniu e ensinou os moços do coro, preparou as partes usadas nas celebrações e formou um repertório para as missas, as horas canônicas e as festas do calendário católico. Entre os manuscritos copiados por sua mão há obras de compositores portugueses anteriores a 1774, usadas ao lado de suas próprias composições. A orientação inicial privilegiava as vozes e o órgão. Cordas e sopros passaram a ser empregados conforme os músicos e o dinheiro disponíveis para cada cerimônia.

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