Bento de Jesus Caraça GCSE • GOL (Conceição, Vila Viçosa, 18 de abril de 1901 — Santa Isabel, Lisboa, 25 de junho de 1948) foi um matemático português, professor universitário, resistente antifascista comunista revolucionário e militante do Partido Comunista Português. Foram nomeadas, em sua homenagem, uma biblioteca na Moita e uma rede de estabelecimentos de ensino profissional com sede em Lisboa e expressão nacional.
A 20 de julho de 2013, a casa onde nasceu abriu ao público depois de ter sido integralmente recuperada, reunindo um acervo com obras e fotografias da sua autoria (Casa Museu Bento de Jesus Caraça).
Bento de Jesus Caraça era filho de João António Caraça, trabalhador agrícola, e Domingas da Conceição Espadinha, doméstica, ambos naturais de Vila Viçosa, freguesia de São Bartolomeu. Passou os primeiros cinco anos de vida na “Herdade da Casa Branca”, na freguesia de Montoito, no Redondo, propriedade de um abastado casal de lavradores, Raúl de Albuquerque e D. Jerónima de Albuquerque, de quem o pai era feitor. Aprendeu a ler e a escrever com o trabalhador agrícola José Percheiro.
D. Jerónima de Albuquerque, mulher sem filhos e fascinada pelas capacidades do jovem Bento de Jesus Caraça, propôs-se assumir os encargos da sua educação, o que foi aceite pelos pais. Depois de concluir o Ensino Primário em Vila Viçosa, Bento de Jesus Caraça prosseguiu os estudos no Liceu de Sá da Bandeira, em Santarém e, aos 13 anos, partiu para Lisboa estudar no Liceu Pedro Nunes, concluindo com distinção o ensino secundário em 1918.
No mesmo ano, em 1918, matriculou-se no Instituto Superior de Comércio, atual ISEG. Um ano depois, aos 18 anos, foi nomeado 2º assistente pelo professor Aureliano de Mira Fernandes.
Para poder custear os estudos, deu explicações de matemática e, no 2º ano do curso, aos 19 anos, foi professor dos alunos do 1º ano. Licenciou-se em 1923, aos 22 anos, com altas classificações, passando a 1º assistente. Aos 26 anos, foi nomeado professor extraordinário e chegou a professor catedrático com altos louvores, em 1929, aos 28 anos, após concurso público.
A 31 de dezembro de 1926, casou primeira vez civilmente, em Lisboa, com Maria Octávia Miranda Sena Marques e Cunha (Santa Isabel, Lisboa, c. 1900 — 18 de setembro de 1927), doméstica, filha do professor liceal Adolfo Bernardino de Sena Marques e Cunha, natural de Abrantes, e de Maria Teresa Miranda de Sena, doméstica, natural de Almada, freguesia de Caparica. Foram padrinhos de casamento os pais da noiva e o professor Aureliano de Mira Fernandes. Ficou viúvo nove meses após o casamento.
A 25 de agosto de 1943, casou segunda vez civilmente, em Lisboa, com a professora Cândida Ribeiro Gaspar (Ramalhal, Torres Vedras, c. 1918), licenciada em Ciências Económicas e Financeiras, filha do ferroviário Manuel Gaspar Júnior, natural do Entroncamento, e de Maria Palmira Ribeiro Gaspar, doméstica, natural de Tábua, freguesia de Póvoa de Midões. Foram padrinhos de casamento, entre outros, o professor Luís Hernâni Dias Amado e o escritor Manuel Mendes. Deste casamento nasceu o seu único filho, João Manuel Gaspar Caraça, a 22 de agosto de 1945, em Lisboa.
Licenciou-se, em 1923, no Instituto Superior de Comércio, hoje Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa.
Face ao imobilismo académico que se vivia nas Universidades, Bento de Jesus Caraça posicionou-se contra os resquícios da Escolástica Aristotélica, procurando instituir Centros de Investigação intelectualmente dinâmicos, tratando os alunos não como meros destinatários do conhecimento, mas antes como agentes dialécticos da docência, intervenientes no próprio processo de aprendizagem. Foi um professor dotado de um grande carisma e cultura, próximo da juventude, ficando conhecido por atrair inusitadamente e, em grande número, estudantes de outras áreas de ensino que pediam para vir assistir às suas aulas.
Num cenário de forte elitismo e segregação social, foi um ativista da mudança, um defensor da liberdade e da igualdade, e militou pela difusão da cultura e do conhecimento científico junto das camadas populares como forma de emancipação intelectual e social. Atuou como ávido promotor e entusiasta da Universidade Popular Portuguesa (UPP), fundada por António Ferreira de Macedo em 1919 e inaugurada a 27 de abril de 1929, cuja presidência assumiu em dezembro de 1928, com o objetivo contribuir para a educação geral do povo, designadamente através da realização de conferências, sessões cinematográficas e da constituição de bibliotecas para a classe operária. A UPP alcançou grande prestígio em Portugal e reconhecimento internacional.
Em 1936, fundou o Núcleo de Matemática, Física e Química com outros recém-doutorados nas áreas da matemática e física. Em 1938, com os também professores, Mira Fernandes e Beirão da Veiga, fundou o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, que dirigiu até outubro de 1946, ano da sua extinção pelo Governo.
Em 1940, com os professores António Aniceto Monteiro, Hugo Baptista Ribeiro, José da Silva Paulo e Manuel Zaluar Nunes, criou a Gazeta de Matemática. Em 1941, criou a "Biblioteca Cosmos", para edição de livros de divulgação científica e cultural, com linguagem acessível e vocacionada para as classes populares, a qual publicou 114 livros, com uma tiragem global de 793 500 exemplares. Colaborou também nas revistas Técnica, Gazeta de Matemática, Seara Nova, Vértice e Revista de Economia. Foi membro do MUNAF e vice-presidente do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Entre 1943 e 1944 foi o segundo presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática com Aureliano de Mira Fernandes.
Em 1946, foi afastado do ensino e preso pela PIDE. Em outubro do mesmo ano, foi demitido do lugar de professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. Permaneceu um ídolo entre os alunos do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras que, segundo consta, reduziam a sigla da instituição a «Isto Sem Caraça Era Fácil», dado a sua exigência como professor. Esteve ligado à origem da então inovadora Revista de Economia, cujo primeiro número, com colaboração sua, foi publicado em 1946, pouco antes da sua morte.
Vítima de doença cardíaca, morreu em casa no dia 25 de junho de 1948, na rua Almeida e Sousa n°63, em Campo de Ourique, Lisboa, no mesmo prédio onde também residia o amigo e ativista social, professor António Ferreira de Macedo. O seu funeral para o jazigo de família, no Cemitério dos Prazeres, contou com um longo e memorável cortejo fúnebre explicitamente antissalazarista.
Bento de Jesus Caraça foi agraciado, a título póstumo, com:
A Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, em 3 de setembro de 1979;
O Grande-Oficialato da Ordem da Liberdade, em 30 de junho de 1980;