João Fernandes Campos Café Filho, mais conhecido como Café Filho (Natal, 3 de fevereiro de 1899 – Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1970), foi um jornalista, advogado, servidor público e político brasileiro, sendo o 18.º presidente do Brasil entre 24 de agosto de 1954 e 8 de novembro de 1955. Antes disso, foi 13.º vice-presidente da República no segundo governo de Getúlio Vargas, período em que também presidiu o Senado Federal.
Nascido no Rio Grande do Norte, Café Filho construiu sua carreira pública a partir do jornalismo oposicionista, da advocacia voltada à defesa de trabalhadores e da crítica às oligarquias estaduais da Primeira República. Ainda jovem, atuou na imprensa de Natal e de Recife, participou de movimentos políticos ligados à oposição ao domínio oligárquico e foi preso e perseguido em diferentes momentos da década de 1920.
Depois da Revolução de 1930, foi nomeado chefe de polícia do Rio Grande do Norte, fundou o Partido Social Nacional e elegeu-se deputado federal em 1934. Na Câmara, destacou-se pela oposição a medidas de exceção e pelo discurso em defesa de garantias constitucionais. Com o Estado Novo, perdeu o mandato, afastou-se da vida parlamentar e retornou à política institucional com a redemocratização de 1945, quando foi eleito para a Assembleia Nacional Constituinte de 1946.
Em 1950, Café Filho foi eleito vice-presidente da República em chapa eleitoral informalmente associada à candidatura de Getúlio Vargas, embora ambos pertencessem a partidos diferentes. Assumiu a Presidência em 24 de agosto de 1954, após o suicídio de Vargas, em meio a uma crise político-militar aberta pelo atentado da rua Tonelero e pela pressão de setores das Forças Armadas contra o governo.
Seu curto governo foi marcado por tentativa de estabilização econômica, contenção do crédito, estímulo à entrada de capital estrangeiro, reorganização administrativa e continuidade de projetos de infraestrutura, como a política federal de eletrificação e a inauguração da usina de Paulo Afonso. A presidência também ficou marcada pela crise sucessória de 1955, que levou ao chamado Movimento de 11 de Novembro, ao impedimento de Carlos Luz e, em seguida, ao impedimento do próprio Café Filho de reassumir a Presidência após afastamento por motivo de saúde.
Primeiros anos, família e formação
Café Filho nasceu em Natal, capital do Rio Grande do Norte, em 3 de fevereiro de 1899. Era filho de João Fernandes Campos Café e de Florência Amélia Campos Café. Segundo o verbete biográfico do CPDOC/FGV, seu avô paterno havia sido proprietário de engenho em Ceará-Mirim, mas seu pai perdeu as terras herdadas e tornou-se funcionário público.
Fez os primeiros estudos em instituições de Natal, entre elas o Colégio Americano, o Grupo Escolar Augusto Severo, a Escola Normal e o Ateneu Norte-Rio-Grandense. Ainda adolescente, costumava assistir a sessões do júri, experiência que contribuiu para sua aproximação com a retórica jurídica e com a advocacia criminal e trabalhista.
Em 1917, mudou-se para Recife, onde trabalhou como comerciário para custear os estudos na Academia de Ciências Jurídicas e Comerciais. Não concluiu curso superior formal, mas retornou ao Rio Grande do Norte e obteve habilitação para atuar como advogado por meio de exame perante o Tribunal de Justiça do estado. A partir daí, passou a defender principalmente trabalhadores, o que lhe deu projeção popular em Natal.
Sua trajetória inicial combinou três campos que permaneceriam centrais em sua vida pública: jornalismo, advocacia e política. Diferentemente de muitos líderes nacionais de sua geração, Café Filho não veio diretamente das elites agrárias tradicionais, e sua ascensão esteve associada à imprensa combativa, à atuação em causas trabalhistas e à oposição ao controle oligárquico da política estadual.
Jornalismo, advocacia e oposição oligárquica
A atividade jornalística regular de Café Filho começou em 1921, quando fundou ou passou a dirigir o Jornal do Norte, em Natal. O periódico se alinhou à Reação Republicana, movimento que apoiou a candidatura presidencial de Nilo Peçanha contra Artur Bernardes na eleição de 1922. No Rio Grande do Norte, Café Filho participou da organização da visita de Nilo Peçanha e publicou críticas às oligarquias estaduais.
A vitória de Artur Bernardes foi seguida por aumento da repressão política a opositores. Café Filho se aproximou de movimentos de trabalhadores urbanos, defendeu estivadores, pescadores e operários têxteis, e apoiou greves que confrontavam autoridades locais. Em consequência dessa atuação, foi preso, respondeu a processos e sofreu perseguições políticas.
Em meados da década de 1920, após conflitos com autoridades do Rio Grande do Norte, transferiu-se para Pernambuco. Em Recife, assumiu a direção do jornal A Noite, de orientação oposicionista. Também se envolveu em manifestações contra a repressão à Coluna Prestes, o que motivou novo processo. Em determinado momento, refugiou-se na Bahia sob o nome de Senílson Pessoa Cavalcanti, antes de retornar e cumprir pena.
Esse período consolidou sua imagem como jornalista de combate e defensor de setores populares. Ao mesmo tempo, sua trajetória revelava forte oposição ao sistema político da Primeira República, marcado pelo domínio de grupos estaduais, por eleições frequentemente contestadas e pelo uso recorrente de mecanismos policiais contra adversários.
Revolução de 1930 e chefia de polícia no Rio Grande do Norte
Na eleição presidencial de 1930, Café Filho apoiou a Aliança Liberal, que lançou Getúlio Vargas à Presidência e João Pessoa à Vice-Presidência. Após a vitória oficial de Júlio Prestes, considerada fraudulenta pelos aliancistas, Café Filho aderiu ao movimento revolucionário iniciado em 3 de outubro de 1930.
Durante a Revolução de 1930, comandou um grupo armado que auxiliou a abertura do caminho para a entrada das forças revolucionárias no Rio Grande do Norte. Com a ocupação de Natal e a deposição das autoridades ligadas à antiga ordem estadual, foi formada uma junta governativa. Café Filho foi nomeado chefe de polícia do estado, cargo no qual determinou a libertação de presos políticos.