Clevelândia é um município brasileiro do estado do Paraná. Sua população, conforme estimativas do IBGE de 2020, era de 16 450 habitantes.
Identificados no sítio Ouro Verde I (município de Boa Esperança do Iguaçu), as ferramentas de pedra e as quase 500 gravuras rupestres desenhadas em afloramentos rochosos de andesito e basalto constituem as evidências mais antigas da presença humana na região entre os rios Chopim e Iguaçu. Segundo as pesquisas mais recentes, esse conjunto de evidências data de cerca de 9.000 anos atrás, quando diversos grupos ameríndios se estabeleceram no atual sudoeste do Paraná. Esses primeiros grupos humanos viviam em um ambiente mais seco e mais frio do que o atual, com predomínio de campos e estepes. As matas de araucárias eram consideravelmente menores, provavelmente se concentrando em áreas mais úmidas.
Embora sem informações a respeito do período de ocupação, há ao menos um sítio arqueológico em Clevelândia onde antigos instrumentos líticos pré-coloniais foram identificados. Localizado na margem esquerda do rio São Francisco, o sítio São Francisco Sales 1 provavelmente tratava-se de um antigo acampamento ameríndio, apresentando instrumentos bifaciais e unifaciais feitos em basalto, arenito silicificado, calcedônia e quartzo. Em geral, as peças encontradas correspondem a lâminas de machado, mãos-de-pilão, raspadores e outras ferramentas, assim como um grande número de lascas e outros fragmentos relacionados à produção desses instrumentos.
Os primeiros grupos ceramistas teriam alcançado a região do Baixo Iguaçu a cerca de 2.500 anos A.P. (antes do Presente), provavelmente oriundos do Planalto Central. Seja pela expulsão ou assimilação de populações pré-ceramistas mais antigas, esses povos fizeram dos vales e morros do sudoeste paranaense seu território, introduzindo também o cultivo de espécies domesticadas, como o milho, batata-doce e mandioca. Além disso, também manejavam espécies de palmeiras e pinheiros, como a araucária, através da qual obtinham o pinhão. De acordo com as pesquisas arqueológicas e antropológicas mais recentes, os primeiros grupos ceramistas a alcançarem o atual Brasil Meridional seriam falantes de idiomas do tronco Macro-Jê, ancestrais dos atuais povos Kaingang e Xokleng. Vestígios das antigas aldeias desses grupos indígenas são encontradas em todo o baixo Iguaçu, quase sempre com a presença das chamadas “casas subterrâneas”. Com diâmetros predominantemente circulares, variando entre 2 e 20 metros, essas estruturas subterrâneas eram escavadas no chão e cobertas por palha, a qual era sustentada por um pilar central vertical.
Em Palmas, município vizinho de Clevelândia, foram identificados cinco sítios arqueológicos que testemunham a presença dos povos Macro-Jê na bacia do rio Iguaçu (Sítio da Fogueira, Fazenda Don José, Sete Ilhas, Barra do Rio Butiá 3 e Sítio da Sanga). Em geral, a maioria das pesquisas arqueológicas relacionam essas evidências materiais com a chamada Tradição Itararé-Taquara. Em Clevelândia, por sua vez, há o registro de um sítio arqueológico cerâmico, identificado em 2017. Denominado sítio PCH São Luís 1, trata-se de um antigo acampamento ameríndio onde também foram encontrados fragmentos de antigas ferramentas de pedra.
Alguns séculos antes da chegada dos primeiros europeus, há registro do avanço dos Guarani sobre a região entre os rios Iguaçu e Chopim, o que muito provavelmente gerou conflitos por esses territórios. De fato, também de acordo com as fontes históricas e etnográficas disponíveis para os séculos XVI, XVII e XVIII, quando os primeiros exploradores portugueses e espanhóis chegaram ao sul e oeste do atual estado do Paraná, a região era habitada por numerosos grupos Kaingang, Guarani e Xokleng (também chamados de Bituruna em fontes antigas).
Expansão e Colonização Europeia no Sudoeste do Paraná: Séculos XVI a XIX
As primeiras tentativas bem-sucedidas de povoamento e colonização europeia do Baixo e Médio Iguaçu ocorreram em fins do século XVI e início do XVII, quando a Companhia de Jesus fundou a redução de Santa Maria. Apesar do território que hoje constitui o município de Clevelândia não fazer parte da Província do Guayrá, os grupos indígenas que habitavam a região entre os rios Chopim e Iguaçu certamente se relacionavam de alguma forma com os jesuítas e administradores espanhóis. Seja através do aldeamento e/ou captura, comércio ou mesmo pela fuga de qualquer contato com os europeus, a presença espanhola e jesuíta impactou profundamente os grupos ameríndios que habitavam esse território. Na segunda metade do século XVII, as reduções jesuíticas do Guairá foram destruídas em diversos ataques de bandeirantes paulistas, os quais também tinham como objetivo capturar e levar indígenas para trabalhar nas fazendas da Capitania de São Paulo.
Além de impedirem o projeto de colonização espanhol da região, os ataques bandeiristas também geraram uma oportunidade para que grupos Kaingang e Xokleng reocupassem os territórios entre os rios Iguaçu e Chopim. Isso se deu tanto pela preferência bandeirante pela escravização de indivíduos Guarani quanto pelo pouco interesse despertado pela região entre os rios Iguaçu e Chopim e os chamados Campos de Palmas. Apesar disso, as terras do oeste e sul do Paraná posteriormente passaram ao domínio legal da Coroa Portuguesa, após os Tratados de Madrid (1750) e Santo Ildefonso (1777).
Também durante as últimas décadas do século XVIII, pequenas fazendas de criação de gado começaram a se estabelecer nos Campos de Palmas, embora seguisse predominantemente ocupada por populações indígenas. Algumas das fontes disponíveis mencionam dois fazendeiros oriundos de Guarapuava entre os primeiros a se estabelecer na região, já na primeira metade do século XIX: Joaquim Ferreira dos Santos e Pedro Siqueira Cortês. Segundo consta, conflitos a respeito dos limites das terras de ambos teria demandado a arbitragem externa de juízes da então vila de Curitiba. Com isso, em 28 de maio de 1840, João da Silva Carrão e José Joaquim Pinto Bandeira se deslocaram até a região que posteriormente formaria o município de Clevelândia, dividindo as terras a partir do ribeirão Caldeiras. As de Pedro Siqueira Cortês para o oeste do rio, ocupando a área denominada “Alagoas ou lagoa” e as de Joaquim Ferreira dos Santos para o leste do curso d’água, chamado na documentação como “Arranchamento velho”.
Segundo outras fontes, no mesmo ano de 1840, cerca de 37 fazendas pecuárias já existiam na região entre os rios Iguaçu e Chopim, embora relativamente esparsas pelo território. Esse princípio de ocupação colonizadora já provocava interesse o suficiente da administração da Província de São Paulo, portanto, a ponto de serem deslocados representantes oficiais para definir os limites das propriedades rurais recém-estabelecidas.
Sendo uma região de fronteira pouco colonizada tanto no período de dominação portuguesa quanto após a independência do Brasil, a bacia do rio Iguaçu também foi alvo de expedições militares de reconhecimento na primeira metade do século XIX. Entre 1814 e 1819, uma expedição militar liderada pelo sargento José de Andrade Pereira explorou a região dos Campos de Palmas, procurando estabelecer um caminho que servisse de conexão entre as províncias de São Paulo e São Pedro do Rio Grande do Sul. Somente em 1882 a presença militar no sudoeste paranaense adquiriu características permanentes, contudo, após a fundação da Colônia Militar do Chopim, localizada em um afluente desse rio.
Nesse momento, os grupos Kaingang da região alternaram diferentes processos de resistência, desde o conflito aberto até a aproximação com os militares, buscando algumas vezes o auxílio destes contra aldeias rivais. Ainda assim, a criação de aldeamentos para os indígenas da região seguiu por todo o século XIX, de forma a facilitar a conversão dos mesmos à “civilização”. Por conseguinte, na última década dos oitocentos, o Aldeamento de Palmas contava com quase 200 indígenas, quase todos Kaingang. Embora consideravelmente reduzidos em número e em território, os grupos indígenas ainda se fazem presentes na região.