Dante Alighieri (Florença, entre 21 de maio e 20 de junho de 1265 – Ravena, 14 de setembro de 1321) foi um poeta, escritor e político florentino nascido na atual Itália. Alcunhado il sommo poeta, é considerado um dos maiores e mais influentes poetas de todos os tempos devido à sua epopeia A Divina Comédia, tida como uma das maiores obras do Renascimento. A sua obra, em conjunto com a de Petrarca, revolucionou a poesia ocidental ao fazer uso da língua italiana, explorando, assim, uma língua viva e nacional em detrimento do latim, e ao introduzir e popularizar novos meios de expressão poética, como o decassílabo, o soneto e a terza rima.
Dante nasceu em Florença, onde viveu a primeira parte da sua vida até ser exilado. No exílio, escreveu a sua obra principal, originalmente intitulada Commedia e mais tarde rebatizada com o adjetivo Divina por Boccaccio, tomando assim o título que se consagrou a partir de 1555.
O seu nome (Dante), segundo o testemunho do seu filho, Jacopo Alighieri, era um hipocorístico de "Durante". Nos documentos, era seguido do patronímico "Alagherii" ou do gentílico "de Alagheriis", enquanto que a variante "Alighieri" se afirmou com o advento de Boccaccio.
Primeiros anos de vida e família
A data de nascimento de Dante não é conhecida com exatidão, embora se indique habitualmente como sendo por volta de 1265. Esta datação é deduzida com base em algumas alusões autobiográficas relatadas na Vita Nova e no cântico do Inferno, que começa com o bastante celebrado verso Nel mezzo del cammin di nostra vita. Partindo da hipótese de que a metade da vida do homem seja, para Dante, o trigésimo quinto ano de vida e que a viagem imaginária tivesse ocorrido em 1300, chegar-se-ia, por conseguinte, ao ano de 1265. Além das especulações dos críticos, esta hipótese é também sustentada por um contemporâneo de Dante, o histórico florentino Giovanni Villani que, na sua Nova Cronica, relata que «questo Dante morì in esilio del comune di Firenze in età di circa 56 anni» («este Dante morreu no exílio da comuna de Florença com a idade de cerca de 56 anos»): uma prova que confirmaria essa tese. Outro testemunho é relatado por Giovanni Boccaccio que, nas suas investigações sobre a vida do amado Dante, conheceu em Ravenna ser Piero di messer Giardino da Ravenna, amigo de Dante durante o exílio deste último na cidade romagnola: o poeta terá contado a Piero, pouco antes de expirar, que tinha completado 56 anos no mês de maio. Alguns versos do Paradiso sugerem também que terá nascido sob o signo de Gémeos, ou seja, num período compreendido entre 14 de maio e 13 de junho.
Contudo, se o dia do seu nascimento é desconhecido, certo é, por outro lado, o do seu batismo: 27 de março de 1266, num Sábado Santo. Nesse dia, foram levados à fonte sacra todos os nascidos daquele ano para uma cerimónia solene coletiva. Dante foi batizado com o nome de Durante, mais tarde sincopado para Dante, em memória de um parente gibelino. Repleta de referências clássicas é a lenda narrada por Giovanni Boccaccio em Il Trattatello in laude di Dante a respeito do nascimento do poeta: segundo Boccaccio, a mãe de Dante, pouco antes de dar à luz, teve uma visão e sonhou que se encontrava sob um loureiro altíssimo, no meio de um vasto prado com uma fonte jorrante, com o pequeno Dante recém-nascido, e que via o menino estender a mão em direção às ramagens, comer bagas e transformar-se num magnífico pavão.
Dante pertencia aos Alighieri (cujo apelido era, na realidade, Alaghieri), uma família de importância secundária dentro da elite social florentina e que, nos últimos dois séculos, tinha alcançado uma certa abastança económica. A família estava comprometida politicamente com o partido dos guelfos, uma aliança política envolvida em lutas com outra facção de florentinos: os gibelinos. Os guelfos estavam ainda divididos em "guelfos brancos" e "guelfos negros". Embora Dante afirme que a sua família descendia dos antigos romanos, o parente mais distante que ele mesmo menciona pelo nome é o seu trisavô Cacciaguida do Eliseu, um florentino que viveu por volta de 1100 e cavaleiro na Segunda Cruzada sob o comando do imperador Conrado III.
Como sublinha Arnaldo D'Addario na Enciclopedia dantesca, a família dos Alighieri (que tomou este nome a partir da família da esposa de Cacciaguida) e que se sabe ter habitado no ‘’sesto’’ de Porta San Piero, uma das seis divisões administrativas da Florença medieval, passou de um estatuto nobiliárquico meritocrático para um estatuto burguês abastado, mas menos prestigiado a nível social. O avô paterno de Dante, Bellincione era um plebeu e a irmã de Dante também se casou com um plebeu. O filho de Bellincione (e pai de Dante), Aleghiero ou Alighiero di Bellincione, exercia a profissão de campsor (cambista), com a qual conseguiu assegurar o devido decoro à sua numerosa família. Graças à descoberta de dois pergaminhos conservados no Arquivo Diocesano de Lucca sabe-se também que o pai de Dante terá exercido a usura (dando origem à Tenzone (disputa poética) entre Alighieri e o seu amigo Forese Donati), enriquecendo através da sua posição de procurador judicial no tribunal de Florença. Era também um guelfo branco, mas sem ambições políticas. Por essa razão, os gibelinos não o exilaram após a Batalha de Montaperti, como fizeram com outros guelfos, julgando-o um adversário não perigoso e não por qualquer posição prestigiosa da família, como durante muito tempo se acreditou.
A mãe de Dante chamava-se Bella degli Abati, filha de Durante Scolaro (é provável que os pais de Dante tenham dado ao filho o nome do avô) e pertencia a uma importante família gibelina local. O seu nome, traduzido literalmente, significa "a bela dos abades". Bella, contudo, é uma contracção de Gabriella. O filho, Dante, nunca a mencionará nos seus escritos, resultando daí que possuímos pouquíssimas informações biográficas a seu respeito. Bella morreu quando Dante tinha cinco ou seis anos e Alighiero, que provavelmente já tinha quarenta anos quando Dante nasceu e que terá falecido em 1282-1283, voltou a casar-se, possivelmente entre 1275 e 1278, com Lapa di Chiarissimo Cialuffi. Há autores que sustentam que se tenham unido sem contrair matrimónio, graças a dificuldades levantadas, na época, ao casamento de viúvos. Deste casamento nasceram Francesco e Tana Alighieri (Gaetana) e talvez também — embora possa ter sido filha de Bella degli Abati — uma outra filha, recordada por Boccaccio como esposa do pregoeiro florentino Leone Poggi e mãe de Andrea Poggi o qual, segundo o testemunho do próprio Boccaccio, se assemelhava de forma impressionante ao seu tio Dante. Presume-se que Dante aluda a esta irmã de nome desconhecido na Vita nuova (Vita nova) XXIII, 11-12, chamando-lhe «donna giovane e gentile [...] di propinquissima sanguinitade congiunta».
Com a idade de doze anos, em 1277, foi acordado o seu casamento com Gemma, filha de Messer Manetto Donati, com quem viria a casar aos vinte anos de idade, em 1285. Celebrar casamentos em idade tão precoce era bastante comum naquela época. Fazia-se mediante uma cerimónia importante, que exigia atos formais assinados perante um notário. A família a que Gemma pertencia – os Donati – era uma das mais importantes da Florença tardo-medieval (ao contrário dos Alighieri, pertenciam à alta aristocracia) e viria posteriormente a tornar-se o principal ponto de referência da fação política oposta à do poeta, ou seja, os guelfos negros.
Segundo a tradição recolhida por Boccaccio e posteriormente retomada no século XIX por Vittorio Imbriani, o casamento não terá sido muito feliz. Com efeito, Dante não escreveu um único verso dedicado à esposa, ao passo que também não chegaram até nós notícias que comprovem a presença efetiva de Gemma ao lado do marido durante o exílio. Seja como for, da união nasceram quatro filhos: Giovanni, o primogénito, depois Jacopo, Pietro e Antonia. Pietro foi juiz em Verona e o único que deu continuidade à linhagem dos Alighieri, uma vez que Jacopo optou por seguir a carreira eclesiástica, enquanto Antonia se tornou freira com o nome de Irmã Beatriz, ao que parece no convento das Olivetanas, em Ravenna. Giovanni, cuja existência sempre foi posta em dúvida, é atestado por um documento de um notário florentino datado de 20 de maio de 1314, cuja descoberta foi feita em 1940 por Renato Piattoli, mas nunca publicada; foi redescoberto em 2016 com a publicação da nova edição do Corpo Diplomatico Dantesco.