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Ernesto Nazareth

Compositor e pianista brasileiro (1863-1934)

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Ernesto Júlio de Nazareth (20 de março de 1863 – 1 de fevereiro de 1934) foi um compositor e pianista brasileiro. Escreveu quase exclusivamente para piano, valendo-se das valsas e polcas tocadas nos salões do Rio de Janeiro, da música de carnaval, da execução dos chorões e dos pianeiros, e do repertório europeu que estudara, sobretudo Chopin. Em sua escrita pianística, adaptou figuras do violão, do cavaquinho e da flauta como acompanhamento sincopado, melodia lírica e contraponto interno.

Nazareth compôs cerca de noventa tangos, quarenta valsas e vinte polcas, além de mazurcas, schottisches, marchas e sambas. Embora partilhassem ritmos sincopados, ele recusava a denominação de maxixe para seus tangos. Suas partituras circularam como música de salão por cafés, lojas de música e cinemas, em rodas de choro e nos palcos de concerto.

Peças como Brejeiro, Odeon, Apanhei-te, cavaquinho e Ameno Resedá passaram das partituras para bandas, gravações, grupos de choro e pianistas de concerto. Suas obras receberam milhares de gravações, em formações que vão do piano solo aos grupos de câmara e às orquestras. A Academia Brasileira de Música nomeou-o patrono da cadeira n.º 28.

Nazareth nasceu no Rio de Janeiro, na área então chamada Morro do Nheco, atual Morro do Pinto, no bairro de Santo Cristo. Seu pai, Vasco Lourenço da Silva Nazareth, trabalhava como despachante aduaneiro. Sua mãe, Carolina Augusta Pereira da Cunha, foi sua primeira professora de piano e lhe apresentou um repertório que abrangia Beethoven, Chopin, Gottschalk, Arthur Napoleão e peças de salão então em circulação no Rio de Janeiro. Chopin tornou-se um dos principais interesses musicais de Nazareth.

Sua mãe morreu em 1874, quando Nazareth tinha onze anos. Ele passou a estudar com Eduardo Rodolfo de Andrade Madeira, amigo da família, e depois com Charles Lucien Lambert, pianista e professor nascido em Nova Orleans que vivia no Rio de Janeiro e fora amigo de Louis Moreau Gottschalk. Uma queda de árvore na infância provocou-lhe um ferimento na cabeça e sangramento em um dos ouvidos; os problemas auditivos decorrentes se agravaram na idade adulta.

Aos catorze anos, Nazareth compôs sua primeira peça, a polca-lundu Você bem sabe, dedicada ao pai. A Casa Arthur Napoleão publicou-a no ano seguinte. Em 1880, pouco antes de completar dezessete anos, fez sua primeira apresentação pública no Club Mozart, em um concerto ao qual compareceram o imperador Pedro II e integrantes da família imperial.

Entre suas primeiras peças publicadas estavam Cruz, perigo!!, de 1879, e Não caio noutra!!!, de 1880, esta última seu primeiro êxito de maior alcance. Na década de 1880, apresentou-se em concertos realizados nos clubes da capital imperial. Em 1893, a Casa Vieira Machado publicou Brejeiro, que se tornou uma de suas obras mais executadas e circulou fora do Brasil, com edições posteriores em Paris e nos Estados Unidos.

Em 14 de julho de 1886, Nazareth casou-se com Teodora Amália Leal de Meireles, com quem teve quatro filhos: Eulina, Diniz, Maria de Lourdes e Ernestinho. Deu seu primeiro concerto como pianista em 1898. A primeira edição de Turuna saiu em 1899. Sua música foi gravada pela primeira vez em 1902, quando a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro registrou Está chumbado. Em 1904, o cantor Mário Pinheiro gravou Brejeiro com letra de Catulo da Paixão Cearense, sob o título O sertanejo enamorado.

Nazareth trabalhou em lojas de música como pianista demonstrador, profissão comum antes da popularização do rádio e dos discos. Os clientes conheciam as novas peças ao ouvi-las executadas ao vivo na loja. Trabalhou na Casa Mozart em 1908 e, mais tarde, na Casa Carlos Gomes, na Rua Gonçalves Dias, loja pertencente ao compositor Eduardo Souto. Em 1909, deu no Instituto Nacional de Música um recital no qual tocou a gavota Corbeille de fleurs e o tango Batuque.

Entre 1909 e 1913, e novamente entre 1917 e 1918, Nazareth tocou na sala de espera do antigo Cinema Odeon, no Rio de Janeiro. O local passou a ser relacionado a seu nome; admiradores iam até lá para ouvi-lo, e o compositor batizou o tango Odeon em homenagem ao cinema. Ali conheceu Arthur Rubinstein e o compositor francês Darius Milhaud, que esteve no Brasil de 1917 a 1918 como secretário da missão diplomática francesa. Milhaud empregaria mais tarde elementos da música popular brasileira em obras como Le boeuf sur le toit e Saudades do Brasil.

Em 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros gravou três de suas peças: Sarambeque, Menino de ouro e Henriette. Em 1920, Heitor Villa-Lobos dedicou a Nazareth o Choro n.º 1.

Em 1922, Luciano Gallet convidou Nazareth a dar um recital no Instituto Nacional de Música. Ele executou Brejeiro, Nenê, Bambino e Turuna. Houve resistência à apresentação de repertório popular urbano na instituição, e foi necessária a intervenção da polícia para assegurar a realização do concerto.

Em 1926, aos 63 anos, Nazareth deixou o estado do Rio de Janeiro pela primeira vez para uma turnê de três meses pelo estado de São Paulo. A viagem durou onze meses e teve apresentações na capital paulista, em Campinas, Sorocaba e Tatuí. Foi homenageado pela Sociedade de Cultura Artística de São Paulo e tocou no Conservatório Dramático e Musical de Campinas. No Theatro Municipal de São Paulo, sua apresentação foi antecedida por uma palestra de Mário de Andrade.

Nazareth voltou ao Rio de Janeiro em 1927. Esteve entre os primeiros artistas a se apresentar na Rádio Sociedade, depois chamada Rádio MEC. Em 1930, compôs sua última obra, a valsa Resignação, e gravou quatro solos de piano: Apanhei-te, cavaquinho, Escovado, Turuna e Nenê. Em 1932, deu um recital dedicado à própria música, acompanhado de palestra de Gastão Penalva, e fez uma turnê pelo Sul do Brasil.

Nazareth viveu em Ipanema a partir de 1917. Sua perda auditiva se agravou no fim da década de 1920. Em 1932, recebeu diagnóstico de sífilis e, em 1933, foi internado na Colônia Juliano Moreira, hospital psiquiátrico de Jacarepaguá. Em 1 de fevereiro de 1934, deixou a instituição. Seu corpo foi encontrado três dias depois nas águas de um reservatório que abastecia o hospital. A causa de morte registrada foi asfixia por submersão. Foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, Rio de Janeiro.

Tango brasileiro, maxixe e choro

A relação de Nazareth com o choro atravessa as peças que publicou como tangos brasileiros. No Rio de Janeiro do fim do século XIX, as palavras choro, maxixe e tango brasileiro ainda não tinham os sentidos fixos que adquiririam depois. Choro designava inicialmente uma maneira de tocar e as reuniões em que pequenos grupos de flauta, violões e cavaquinho executavam polcas, lundus, habaneras, mazurcas e outras danças em estilo urbano sincopado. Esses músicos, chamados chorões, adaptavam formas de dança importadas desde meados do século XIX, usando padrões rítmicos relacionados à habanera, ao tresillo e ao lundu afro-brasileiro.

O tango brasileiro tomou forma nesse ambiente musical carioca. Tinha relação com o tango-habanera, mas, no Rio, também se aproximava do maxixe, dança urbana sincopada que carregava forte estigma moral e de classe nos círculos da elite. Nas partituras impressas, o nome tango brasileiro oferecia a compositores e editores uma designação menos controversa para um repertório cujo ritmo e relação com a dança poderiam ser percebidos como maxixe. Para a geração de Nazareth, a palavra pertencia a um repertório mais amplo de música sincopada para piano e dança derivada da habanera, ouvida em lojas de música, salões, teatros e cafés do Rio, antes que o tango argentino se tornasse a forma mais difundida internacionalmente sob esse nome.

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