Fátima (em árabe: فَاطِمَة; romaniz.: Fāṭima), também conhecida como Fátima Azara (Fāṭima al-Zahrāʾ), foi uma das filhas do profeta islâmico Maomé e de sua primeira esposa, Cadija, e esposa de Ali, primo de Maomé e quarto califa dos muçulmanos. A cronologia de sua vida é incerta: a tradição sunita geralmente situa seu nascimento em Meca por volta de 605, enquanto fontes duodecimanas propõem datas em torno de 612 ou 615. Fátima cresceu durante os primeiros anos da pregação de Maomé e, após a migração da comunidade muçulmana para Medina, casou-se com Ali por volta de 623–625. O casal teve, entre outros filhos, Haçane e Huceine, através dos quais Fátima se tornou ancestral de grande parte da descendência de Maomé. Seus descendentes, tradicionalmente designados pelos títulos de saíde e xarife, ocuparam posição de destaque em numerosas sociedades muçulmanas.
As fontes islâmicas descrevem uma relação particularmente próxima entre Fátima e Maomé, e diversas tradições sunitas e xiitas atribuem-lhe posição excepcional entre as mulheres da comunidade muçulmana. Embora não seja mencionada nominalmente no Alcorão, a exegese islâmica associou-a a diversos trechos do texto, entre eles o versículo da purificação e o versículo da Mubaala. Tradições relacionadas a esses versículos incluem Fátima, Ali, Haçane e Huceine, juntamente com Maomé, entre os Ahl al-Bayt e os Ahl al-Kisa, embora as tradições sunitas e xiitas divirjam quanto à extensão e às implicações religiosas desse grupo. Fátima também ocupa posição proeminente na literatura de hádice, na qual são atribuídas a Maomé declarações acerca de sua proximidade com a filha e de sua elevada posição religiosa. Essas tradições adquiriram importância especialmente no xiismo, no qual Fátima é considerada ancestral dos imames e uma das figuras centrais da família de Maomé.
Os últimos meses de sua vida estão estreitamente ligados às disputas que se seguiram à morte de Maomé, em 632. Fátima contestou a disposição dos bens do pai durante o califado de Abu Becre, particularmente em relação à propriedade de Fadaque, reivindicada por ela como presente recebido em vida e, posteriormente, como parte de sua herança. A controvérsia tornou-se um dos principais episódios das divergências posteriores entre as tradições sunitas e xiitas acerca da sucessão de Maomé. Relatos também situam Fátima entre os opositores iniciais à escolha de Abu Becre no Saquifa e associam sua casa à resistência de Ali e de alguns dos haxemitas ao novo califa. As fontes divergem profundamente sobre os acontecimentos subsequentes: tradições xiitas sustentam que Fátima foi ferida durante uma incursão liderada por Omar e que perdeu uma gravidez em consequência disso, enquanto a tradição sunita rejeita essa versão. A historicidade e a extensão de eventual violência permanecem discutidas também pela historiografia moderna.
Fátima morreu em Medina em 632, menos de seis meses depois de Maomé, ainda muito jovem; sua idade, a causa exata da morte e até mesmo o local de seu sepultamento permanecem incertos. Diversas fontes afirmam que morreu sem se reconciliar com Abu Becre, e tradições relatam que, atendendo à sua vontade, Ali a sepultou durante a noite sem divulgar a localização de seu túmulo. Sua morte e as controvérsias dos últimos meses de sua vida adquiriram importância duradoura sobretudo na memória religiosa xiita, na qual seu sofrimento passou a integrar uma concepção mais ampla do martírio e das provações dos Ahl al-Bayt. Ao mesmo tempo, Fátima é reverenciada tanto por sunitas quanto por xiitas e tornou-se uma das figuras femininas mais importantes da tradição islâmica, associada à piedade, à proximidade com Maomé e à continuidade de sua linhagem. No período moderno, sua imagem recebeu ainda novas interpretações políticas e sociais, especialmente no mundo xiita, onde passou a ser apresentada também como símbolo de resistência, compromisso social e defesa dos oprimidos.
O nome Fátima deriva da raiz árabe f-ṭ-m (lit. "desmamar"). Fontes xiitas associam essa etimologia à crença de que Fátima, sua descendência e seus partidários (shīʿa) seriam poupados do fogo do inferno. Alternativamente, fontes xiitas relacionam o nome Fátima a Fāṭir (lit. "Criador"), um dos nomes de Deus, apresentando-a como símbolo terreno do poder criador divino. Uma das cúnias atribuídas a Fátima é Ume Abiá (Umm Abīhā, lit. "mãe de seu pai"), interpretada como alusão ao cuidado excepcional que teria dedicado ao pai. Ume Alaima (Umm al-Aʾimma, lit. "mãe dos imames") é outra cúnia empregada para Fátima em fontes duodecimanas, em referência ao fato de onze dos Doze imames descenderem dela. O epíteto mais comum de Fátima é Azara (al-Zahrāʾ, lit. "a que brilha; a radiante"), associado à sua piedade e regularidade na oração. Na tradição xiita, esse epíteto é interpretado como referência à criação primordial de Fátima a partir da luz, que continuaria a irradiar-se por toda a criação. O estudioso xiita Ibne Babauai (m. 991) relata que, sempre que Fátima orava, sua luz brilhava para os habitantes dos céus como a luz das estrelas brilha para os habitantes da Terra. Outros títulos atribuídos a Fátima na tradição xiita são Açadica (al-Ṣiddīqa, lit. "a justa"), Ataira (al-Ṭāhira, lit. "a pura"), Almubaraca (al-Mubāraka, lit. "a abençoada") e Almançora (al-Manṣūra, lit. "a auxiliada por Deus"). Outro título xiita é Almuadita (al-Muḥadditha), relacionado a relatos segundo os quais anjos teriam falado com Fátima em diversas ocasiões, de maneira comparada, nessa tradição, a Maria. Fátima também é designada como Sayyidat Nisāʾ al-Janna (lit. "senhora das mulheres do Paraíso") e Sayyidat Nisāʾ al-ʿĀlamīn (lit. "senhora das mulheres dos mundos") em coleções de hádices sunitas e xiitas, inclusive nas coleções canônicas sunitas Sahih al-Bukhari, de Albucari, e Sahih Muslim, de Muslim ibne Alhajaje.
Fátima nasceu em Meca, filha de Cadija, a primeira esposa de Maomé. Segundo a cronologia predominante nas fontes sunitas, Cadija deu à luz Fátima em 605, quando teria cerca de cinquenta anos, cinco anos antes das primeiras revelações do Alcorão. Essa cronologia implicaria que Fátima tinha mais de dezoito anos na época de seu casamento, idade considerada incomum para uma mulher solteira na Península Arábica daquele período. Fontes duodecimanas, por outro lado, situam seu nascimento por volta de 612 ou 615, quando Cadija teria idade um pouco mais avançada. Um relato do autor sunita Ibne Sade, em seu Kitab al-Tabaqat al-Kabir, sugere, contudo, que Fátima nasceu quando Maomé tinha cerca de 35 anos. Segundo a tradição sunita, Fátima tinha três irmãs, Zainabe, Ume Cultume e Rocaia, que morreram antes de Maomé. Diversas fontes xiitas duodecimanas, entretanto, afirmam que Zainabe, Rocaia e Ume Cultume foram adotadas por Maomé após a morte de sua mãe, Hala, irmã de Cadija. Segundo Hassan Abbas, a maioria dos xiitas considera Fátima a única filha biológica de Maomé, enquanto Fedele restringe essa posição ao xiismo duodecimano. Hyder registra que essa crença é predominante entre comunidades xiitas do Sul da Ásia. Fátima também tinha três irmãos, todos falecidos durante a infância. Fátima cresceu em Meca durante o período em que Maomé e seus primeiros seguidores enfrentavam a hostilidade de seus adversários. Segundo um relato tradicional, em certa ocasião ela teria acudido Maomé depois que imundícies foram lançadas sobre ele por instigação de Abu Jal, um de seus principais adversários entre os politeístas de Meca. Fátima perdeu a mãe, Cadija, ainda jovem. Segundo a tradição, após a morte de Cadija, Gabriel teria transmitido a Maomé uma mensagem destinada a consolar Fátima.
Fátima casou-se com seu primo Ali, em Medina, por volta de 1 ou 2 A.H. (623–625), possivelmente depois da Batalha de Badre. Fontes sunitas e xiitas relatam que alguns dos companheiros de Maomé, entre eles Abu Becre e Omar, haviam anteriormente pedido Fátima em casamento, mas suas propostas foram recusadas por Maomé, que, segundo a tradição, teria afirmado aguardar o momento determinado pelo destino. Relata-se também que Ali hesitou em pedir a mão de Fátima em razão de sua pobreza. Quando Maomé apresentou a proposta de Ali a Fátima, ela permaneceu em silêncio, o que foi interpretado como consentimento tácito. Esse relato foi posteriormente relacionado à exigência do consentimento feminino para o casamento no direito islâmico. Maomé teria ainda sugerido que Ali vendesse seu escudo para pagar o mahr, o presente nupcial devido à noiva. Segundo os relatos tradicionais, Maomé conduziu a cerimônia de casamento, seguida por um banquete modesto preparado com contribuições de outros muçulmanos. Fontes xiitas acrescentam que Fátima doou seu vestido de casamento na noite das núpcias. Posteriormente, o casal estabeleceu-se numa casa próxima aos aposentos de Maomé em Medina. O casamento durou cerca de dez anos, até a morte de Fátima. Sua idade ao casar é incerta, com estimativas nas fontes variando entre nove e 21 anos, enquanto Ali teria aproximadamente 22 anos.