Guillermo Enrique Billinghurst Angulo (Arica, 27 de julho de 1851-Iquique, 28 de junho de 1915) foi um político, empresário, escritor e jornalista peruano. Foi presidente do Peru e governou de 1912 a 1914.
Empresário do salitre, amigo de Nicolás de Piérola e membro notório de seu partido, o Demócrata, atuou como ministro plenipotenciário no Chile, onde assinou o Protocolo Billinghurst-Latorre (1898) para a realização do plebiscito de Tacna e Arica, o que não foi posto em prática. Entre 1909 e 1910 foi prefeito de Lima, realizando uma vasta obra urbanística e em favor da classe operária. Participou como candidato presidencial em 1912, obtendo rápida e avassaladora popularidade, a tal ponto que questionou as próprias eleições, exigindo ao Congresso da República que as anulasse, alegando uma série de vícios. Os parlamentares aceitaram tal imposição e em seguida o elegeram presidente.
Durante seu mandato, propôs uma legislação social moderna, o que lhe rendeu a oposição dos conservadores, e teve uma luta tenaz com o Congresso, dominado pelos civilistas e leguiístas, seus inimigos políticos. Propôs-se então a dissolver o Congresso e convocar o povo para realizar reformas constitucionais fundamentais, o que motivou que os parlamentares opositores acordassem declará-lo vago por incapacidade moral, ao mesmo tempo em que buscavam o apoio dos militares. Ciente Billinghurst dessa conspiração, reprimiu a oposição e tentou formar milícias populares armadas, o que provocou o levante militar do coronel Óscar R. Benavides, em defesa do Congresso. Billinghurst foi obrigado a renunciar e enviado ao exílio. Pouco depois faleceu em Iquique.
Nasceu em Arica, então ainda parte do Peru. Seu pai foi o argentino Guillermo Eugenio Billinghurst Agrelo, filho do britânico William Robert Billinghurst e da argentina Francisca Agrelo e Moreyra. Sua mãe foi Belisaria Angulo Tudela. Seu avô foi o patriota inglês Roberto Billinghurst, a quem o Governo das Províncias Unidas do Rio da Prata concedeu a primeira cidadania argentina por seus serviços à independência, e cujo nome atualmente é dado a uma rua de Buenos Aires. Seu tio era Mariano Billinghurst. A vila de origem da família é a atual Billinghurst, paróquia de West Sussex, na Inglaterra.
Seus primeiros estudos foram realizados em sua cidade natal, passando depois para Valparaíso, onde estudou no colégio inglês de Goldfinch e Blühm. Mudou-se para Buenos Aires para cursar engenharia, mas ao falecer afogado seu pai durante o tsunami de Arica de 1868, teve que retornar para assumir os negócios salineiros de sua família. Foi amigo de Alfonso Ugarte e tornou-se partidário de Nicolás de Piérola desde seus primórdios na política; por isso acompanhou tal caudilho em suas três tentativas golpistas: primeiro, na expedição do Talismã de 1874; depois na revolta de Moquegua que culminou com a derrota em Yacango em 1876, e finalmente na sublevação do Huáscar de 1877, que culminou no episódio heroico do combate de Pacocha contra os navios da esquadra britânica. Em 1878 foi eleito deputado por Tarapacá.
Iniciado o governo presidencial de Piérola em plena guerra do Pacífico foi nomeado coronel do Exército de Reserva e depois chefe do estado-maior do Exército do Norte. Fez uma arriscada visita ao interior da Bolívia para estudar a possibilidade de uma ofensiva sobre o território chileno, que considerou viável. Participou da defesa de Lima, combatendo com valor na Morro Solar, em 13 de janeiro de 1881, e causando tantas baixas no Exército do Chile, que impressionou os próprios chilenos, a ponto de os invasores lhe perdoarem a vida. Ferido levemente em batalha foi feito prisioneiro, sendo transferido para o Chile.
Finalizada a guerra, atuou como cônsul do Peru em Iquique. Por volta de 1887 iniciou uma ação judicial contra a casa Campbel Outram, da qual fora sócio seu pai falecido em 1868, cujos direitos até então não haviam sido reclamados. O caso chegou até os tribunais de Santiago do Chile e foi objeto de uma transação em 1889. Cada um dos três irmãos Billinghurst, Guillermo, Roberto e Célia recebeu cerca de vinte mil libras esterlinas. Mais tarde Guillermo herdou a parte de seus dois irmãos. Tudo isso, junto com o produto da venda das águas de Pica para a companhia de água potável de Iquique e as ações de várias salitreiras, entre outros negócios, lhe deram uma boa posição econômica.
Militou também no jornalismo, tanto como redator quanto como editor. Colaborou em 1882 na fundação do jornal de Iquique La Industria, redigido pelo escritor colombiano Justiniano de Zubiría. Em 1888 foi fundador e diretor do Ateneu do mesmo porto.
Billinghurst foi membro conspícuo do Partido Demócrata que Piérola fundou em 1884 e a quem ajudou economicamente em sua revolução contra o governo do general Andrés Avelino Cáceres, entre 1894 e 1895. Os vitoriosos (os democratas, aliados com os civilistas) foram depois considerados arquitetos de uma inesperada estabilidade política e econômica surgida no país a partir de 1895, após uma sangrenta guerra civil, mas ao mesmo tempo colocaram em marcha mudanças sociais profundas.
Billinghurst foi eleito primeiro vice-presidente do governo constitucional de Piérola (1895-1899), bem como senador por Tacna em 1895, e presidente de sua câmara em 1896. Nesse mesmo ano, apresentou um projeto de lei ao Senado para legalizar o casamento no Peru para cristãos não católicos, pois até então apenas o casamento católico era reconhecido como única união conjugal válida, estabelecendo assim o primeiro precedente legal para o casamento civil no país.
Nomeado ministro plenipotenciário junto ao Chile, fez várias tentativas de resolver o conflito com o Chile pelos territórios de Tacna e Arica, tendo já vencido o prazo para a realização de um plebiscito conforme previsto no tratado de Ancón. Em 9 de abril de 1898 subscreveu um memorando com o ministro de Relações Exteriores chileno Raimundo Silva Cruz, onde se acordava a realização do plebiscito e como árbitro se requeria a Rainha da Espanha, Maria Cristina de Habsburgo-Lorena, para determinar as condições de voto. Como resultado deste acordo, assinou-se em Santiago, em 16 de abril de 1898, entre Billinghurst e o novo chanceler chileno, almirante Juan José Latorre, o Protocolo que leva seus nomes e no qual, em seus dezoito artigos, constavam os acordos alcançados para a realização do Plebiscito. O Protocolo foi aprovado pelo Congresso peruano, que o considerou um triunfo de sua diplomacia, mas no parlamento chileno não ocorreu o mesmo. Embora o Senado chileno o tenha aprovado inicialmente, na Câmara dos Deputados sua discussão foi sendo prorrogada, até que o assunto foi definitivamente arquivado.
Cabe assinalar que o Chile se mostrou num primeiro momento acessível para realizar o plebiscito por uma razão especial: o agravamento de seu conflito limítrofe com a Argentina, pela posse da Patagônia; naturalmente não lhe convinha ter um potencial fronteira no norte, diante de uma iminente guerra com a Argentina no sul. Uma vez resolvido o problema do sul com o famoso Abraço do Estreito entre os presidentes do Chile e da Argentina (15 de fevereiro de 1899), o governo chileno já não se interessou em levar adiante o plebiscito de Tacna e Arica. Devido a esse revés e à política de chilenização implementada em Tacna e Arica, as relações diplomáticas entre Peru e Chile foram interrompidas em 1901, sendo restabelecidas em 1905, para serem novamente interrompidas em 1909.
Em 1899, diante da proximidade das eleições, parecia natural a candidatura de Billinghurst pelo partido democrata, pois havia colaborado muito com Piérola e seu regime. Mas os ataques acirrados que fez aos civilistas (aliados dos democratas no governo) motivaram que seu próprio partido vetasse sua postulação. Billinghurst retirou-se então da política para dedicar-se a seus negócios. Só retornou quando se colocou a reorganização de seu partido em 1908.
Em 1909 foi eleito prefeito de Lima, cargo que ocupou até o final de 1910, e que lhe serviu como antesala para sua postulação à presidência. Como prefeito mostrou-se sempre disposto a favorecer as classes populares e realizou uma vasta obra urbanística.