João IV (Vila Viçosa, 19 de março de 1604 – Lisboa, 6 de novembro de 1656), conhecido pelos portugueses como "o Restaurador", foi Rei de Portugal e Algarves de 1640 até sua morte, em 1656. Seu reinado marcou a restauração daindependência portuguesa após 60 anos de domínio da Espanha dos Habsburgos, período conhecido como União Ibérica, em que Portugal e Espanha compartilharam o mesmo monarca. Com sua ascensão ao trono, D. João IV consolidou a Casa de Bragança como a nova dinastia reinante de Portugal.
Antes de se tornar rei, D. João era conhecido como "D. João II, 8.º Duque de Bragança" . Ele era neto de D. Catarina de Portugal, uma das candidatas à Crise de sucessão portuguesa de 1580. Na véspera de sua morte, em 1656, o Império Português encontrava-se em seu auge territorial, com possessões espalhadas por diferentes partes do mundo.
João nasceu em Vila Viçosa e era filho de D. Teodósio II de Bragança, 7.º Duque de Bragança, e de D. Ana de Velasco. Era também neto de D. Catarina de Portugal, pretendente ao trono durante a Crise de sucessão portuguesa de 1580. Com a morte de seu pai, em 1630, sucedeu-lhe como 8.º Duque de Bragança, adotando o título de D. João II de Bragança. Segundo o genealogista António Caetano de Sousa, o jovem duque possuía cabelos louros e estatura mediana.
A Casa de Bragança desfrutava de grande prestígio no reino, enquanto o governo filipino enfrentava crescente desgaste em razão da política centralizadora e do aumento da carga tributária promovidos pelo Conde-Duque de Olivares. Nesse contexto, D. João II de Bragança passou a ser visto como o principal representante das aspirações autonomistas da nobreza portuguesa.
O projeto de centralização da Monarquia Hispânica, conduzido pelo Conde-Duque de Olivares, provocou forte oposição nos diferentes reinos da Monarquia dos Habsburgo. A revolta da Catalunha e a convocação da nobreza portuguesa para combater na Guerra dos Segadores agravaram o descontentamento em Portugal, sobretudo num momento em que o império ultramarino português sofria ataques das Províncias Unidas às suas possessões coloniais.
Por ser neto de D. Catarina de Portugal, descendente do rei D. Manuel I de Portugal, D. João II de Bragança foi escolhido pelos conspiradores como candidato ao trono. Em 1 de dezembro de 1640, aceitou a Coroa portuguesa, permitindo o triunfo da revolução que depôs D. Filipe III de Portugal (IV da Espanha).
Foi aclamado rei D. João IV em 15 de dezembro de 1640 e, posteriormente, confirmado pelas Cortes reunidas em janeiro de 1641.
Durante o reinado de D. João IV ocorreram os primeiros confrontos militares contra a Espanha, incluindo a Batalha de Montijo, em 1644, no contexto da Guerra da Restauração, cujo objetivo era garantir o reconhecimento da independência portuguesa perante a Casa de Habsburgo. D. João IV estabeleceu uma aliança com a França contra a Espanha, mantida até a assinatura do Tratado dos Pirenéus, em 1659. No império ultramarino, Portugal sofreu importantes perdas, como a conquista de Malaca pelos neerlandeses em 1641. Contudo, obteve vitórias no Brasil Colônia, na Batalha dos Guararapes (1648–1649), e na África, com a Reconquista de Angola e a recuperação de São Tomé e Príncipe. Em 1646, D. João IV depositou simbolicamente a coroa portuguesa aos pés de Nossa Senhora da Conceição, na Igreja de Vila Viçosa, onde se encontrava o palácio ancestral da Casa de Bragança. O rei declarou a Virgem Maria padroeira e protetora de Portugal, estabelecendo uma tradição segundo a qual os monarcas portugueses deixaram de usar a coroa real diretamente na cabeça.
D. João IV era também um grande apreciador de música, especialmente de música sacra. Durante seu reinado reuniu uma das maiores bibliotecas musicais de seu tempo, destruída posteriormente pelo Terramoto de Lisboa de 1755. Entre seus escritos destaca-se a obra Defensa de la musica moderna contra la errada opinion del Obispo Cyrilo Franco, publicada em Lisboa em 1649, na qual defendeu a música moderna e as ideias de Giovanni Pierluigi da Palestrina.
D. João IV faleceu em 19 de março de 1656, sendo sucedido por seu filho mais velho, D. Afonso VI de Portugal.
Desde o início de seu reinado, D. João IV manteve relações tensas com o Tribunal do Santo Ofício, principalmente devido ao envolvimento do inquisidor-geral Francisco de Castro numa conspiração contra o rei em 1641. Além disso, o monarca entrou em conflito com a Inquisição portuguesa por impedir o confisco de bens em processos inquisitoriais e por defender portugueses enviados para combater pela República Holandesa. Como consequência, D. João IV foi excomungado em 1647, recebendo nova excomunhão em 1649. Após sua morte, seu corpo foi exumado, privado das vestes reais e submetido ao levantamento da excomunhão na presença da rainha viúva e dos infantes.
D. João IV foi um monarca que cultivou a música quer enquanto compositor, quer enquanto tratadista. Tinha a maior biblioteca musical da Europa que infelizmente pereceu com o terramoto de 1755. Algumas das suas obras:
Defensa de la música moderna contra la errada opinion del obispo Cyrilo Franco, 2 dezembro 1649 (?Lisboa, ?1650) [?ed. P. Craesbeeck]; transcrição italiana (?Veneza, ?1649–58); edição moderna de Mário de Sampayo Ribeiro (Coimbra, 1965), [inclui facs-similes.]
Respuestas a las dudas que se pusieron a la missa Panis quem ego dabo de Palestina [sic]; impressa en el quinto libro de sus missas, 25 Sept 1654 (?Roma, ?1655); edição moderna de Mário de Sampayo Ribeiro (Lisboa, 1958), [inclui facs-similes.]
Primeira Parte do Index da Livraria de Música do Muyto Alto e Poderoso Rey D. João o IV Nosso Senhor, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1649.
Dois Motetos, 6vv, inc.: Anima mea turbata est, Vivo ego, in João Lourenço Rebelo, Psalmi tum vesperarum tum completorii, (Roma, 1657).
Atribuição de autoria: Crux fidelis, 4vv, D-Dlb; ed. G. Schmitt,
rée (Paris, 1869); edição moderna de J. Santos, A polifonia clássica portuguesa (Lisboa, 1937); Adjuva nos, 4vv, P-Lf [Manuscrito "Livro de S. Vicente de Fora"].