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José Maurício Nunes Garcia

Padre brasileiro

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José Maurício Nunes Garcia (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1767 – 18 de abril de 1830) foi um sacerdote católico, professor de música, mestre de capela, organista, regente e compositor brasileiro. Sua carreira transcorreu entre o fim do período colonial, a permanência da corte portuguesa no Rio de Janeiro e os primeiros anos do Império do Brasil. De ascendência africana e filho de pardos forros, nasceu numa família de poucos recursos. Estudou música, línguas, retórica e filosofia e começou a ensinar ainda jovem. Para seguir o sacerdócio precisou obter dispensa do chamado "defeito de cor", impedimento previsto no processo de habilitação eclesiástica. Foi ordenado padre em 1792 e, seis anos depois, tornou-se mestre de capela da Catedral do Rio de Janeiro.

A chegada da corte portuguesa em 1808 ampliou sua atividade. Em novembro daquele ano, o príncipe-regente dom João confirmou-o como mestre de música e organista da Capela Real e reconheceu formalmente as aulas gratuitas que ministrava. Em 1809 recebeu o hábito da Ordem de Cristo no grau de cavaleiro. Entre 1808 e 1810 escreveu cerca de setenta obras para cerimônias religiosas e da corte. A chegada de Marcos Portugal em 1811 coincidiu com uma nova distribuição das funções musicais entre compositores, organistas e mestres de capela. José Maurício permaneceu em seu posto, embora sua produção para a Capela Real tenha diminuído. Nos anos seguintes continuou compondo para irmandades, igrejas e cerimônias da corte. Entre suas obras estão a Missa de Nossa Senhora da Conceição (1810), a Missa Pastoril para a Noite de Natal, o Requiem e o Ofício de Defuntos de 1816, a Missa de Nossa Senhora do Carmo (1818) e a Missa de Santa Cecília (1826), sua última composição.

Também escreveu motetos, antífonas, salmos, novenas, matinas, vésperas, música dramática e orquestral, quatro modinhas conhecidas e um método para pianoforte. O catálogo temático publicado por Cleofe Person de Mattos em 1970 reuniu cerca de 235 obras cujas fontes estavam disponíveis para sua pesquisa, além de composições perdidas ou de autoria discutida. Novas fontes encontradas depois da publicação levaram à proposta de revisão do catálogo. José Maurício manteve ainda uma escola gratuita de música e formou alunos como Francisco Manuel da Silva, Cândido Inácio da Silva e Francisco da Luz Pinto. Contemporâneos elogiaram sua habilidade ao teclado, especialmente como acompanhador e improvisador. Com Severiana Rosa de Castro teve seis filhos entre 1806 e 1813. Nos últimos anos enfrentou doenças e dificuldades financeiras, embora continuasse recebendo rendimentos ligados ao cargo de mestre de capela. Morreu em 18 de abril de 1830, aos 62 anos.

Sua recepção póstuma mudou bastante ao longo dos séculos XIX e XX. No século XIX foi aproximado principalmente da tradição austro-germânica. No século XX, autores procuraram em sua música antecedentes de uma linguagem nacional brasileira. Sua ascendência africana e as mudanças na maneira como foi classificado racialmente também se tornaram tema de estudos sobre raça, mestiçagem e embranquecimento historiográfico. A preservação de seus manuscritos, as edições iniciadas no fim do século XIX e o trabalho de pesquisadores como Cleofe Person de Mattos ampliaram o repertório disponível para estudo, execução e gravação.

José Maurício Nunes Garcia nasceu no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1767, e foi batizado na Catedral em 20 de outubro. Seu pai foi Apolinário Nunes Garcia, nascido na Ilha do Governador, batizado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, teria sido tenente ou mestre de campo e trabalhou como alfaiate. Sua mãe foi Vitória Maria da Cruz, natural da freguesia de Nossa Senhora de Nazaré da Cachoeira do Ouro Preto, no bispado de Mariana, que tivera como primeiro marido Raimundo Pereira de Abreu, de quem havia herdado algumas terras em Ubatiba, localidade próxima a Maricá. Seus pais eram mestiços. No processo de habilitação para o sacerdócio de José Maurício, o pai é descrito como "pardo forro, filho natural de Ana Correa do Desterro, crioula da Guiné, e de pai incógnito", e a mãe como "parda forra, filha natural de Joana Giz (Gonçalves), crioula, e de pai incógnito". Casaram-se na Igreja de Santa Rita do Rio de Janeiro, em 14 de agosto de 1762. Testemunhos da época os declaram "sempre bons católicos, vivendo com muita decência", e o pai vivera "com bom crédito de seu ofício de alfaiate".

Diz a tradição que desde cedo José Maurício revelou talento para a música, mas pouco se sabe sobre seus primeiros anos. Manuel de Araújo Porto-Alegre, seu contemporâneo e um dos seus primeiros biógrafos, disse que tinha "desde a mais tenra infância belíssima voz e cantava admiravelmente", e teria sido dotado de "prodigiosa memória", podendo "reproduzir fielmente tudo quanto ouvia executar". Sua trajetória, entretanto, não foi tranquila. Aos seis anos perdeu o pai e passou a ser criado pela mãe com a ajuda de uma tia. As duas mulheres, simples lavadeiras, perceberam o interesse do menino pela música e trabalharam duro para custear as aulas particulares com o professor Salvador José de Almeida Faria, músico mineiro que trazia na bagagem a tradição tardo-barroca e proto-classicista da Escola de Minas e era um antigo amigo da família. Já em 1779, aos doze anos, José Maurício dava aulas particulares de música para ajudar no sustento da família. Sua primeira composição conhecida, a antífona Tota pulchra es Maria, escrita para a Catedral do Rio de Janeiro em 1783, quando tinha 16 anos, já apresenta uma escrita musical segura. Por essa época também auxiliava o padre João Lopes Ferreira, mestre de capela da Sé, a quem sucederia no cargo em 1798. Provavelmente nesta época cantava no coro da Catedral. Em 3 de julho de 1784 participou da fundação da Irmandade de Santa Cecília, sendo um dos seus membros mais jovens. A admissão lhe dava o direito de ensinar música, e a docência passou a ser seu principal ganha-pão nesta fase. A irmandade também regulava o exercício profissional da música no Rio. Por algum tempo, músicos que não pertenciam aos seus quadros ficavam impedidos de exercer o ofício.

Quando José Maurício nasceu, a cidade do Rio poucos anos antes havia se tornado capital da colônia, sucedendo Salvador, e passava por uma fase de modernização, sendo dotada de novas avenidas e embelezamentos, mas ainda era uma urbe bastante provinciana, cujas festas públicas eram basicamente as do calendário religioso e mesmo celebrações civis em geral contavam com a forte participação da Igreja. Porém, a transformação em capital começou a atrair para lá artistas e intelectuais de conceito, as irmandades religiosas tinham mais um motivo para acirrar sua tradicional competição organizando liturgias com música de qualidade e melhorando suas orquestras. O vice-rei, o marquês do Lavradio, procurou dar mais variedade ao ambiente e formar uma elite ilustrada, incentivando as Aulas Régias e a Academia Científica e ordenando a construção de um novo teatro, onde se iniciaram apresentações de espetáculos variados franqueadas ao povo, que incluíam comédias, dramas, mascaradas e até algumas óperas de compositores afamados na Europa, como Paisiello, Jommelli e Cimarosa, mas as encenações ainda eram muitas vezes amadorísticas. Provavelmente, em sua juventude, José Maurício entrou em contato com este centro de cultura, que era o maior da cidade, e pode ter participado de algumas apresentações. Pelo que dizem seus primeiros biógrafos, nunca teve condições de adquirir um cravo ou pianoforte para exercitar-se, fazendo seus estudos práticos com uma viola de arame e tendo acesso a instrumentos de tecla somente em casas de alunos. Também diz a tradição que nunca teve professores de teclado e aprendeu por conta própria, mas parece difícil que não tenha recebido alguma orientação informal de amigos músicos profissionais, sobretudo para aprender o órgão, instrumento de execução particularmente exigente.

Para completar sua formação, frequentou as Aulas Régias, recebendo preparo em História, Geografia, Francês, Italiano, Grego, Latim e Retórica Sacra e Profana com o padre Elias, e Filosofia Racional e Moral com o doutor Agostinho Corrêa da Silva Goulão, formado em Coimbra. Porto-Alegre refere que seu progresso foi muito rápido, dizendo que em pouco tempo seus mestres o consideraram capaz de substituí-los em suas cátedras. Goulão teria materializado o convite, mas José Maurício teria declinado, optando pela dedicação à música e à Igreja.

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José Maurício Nunes Garcia | World in Stories