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Jules Ferry

Político francês (1832-1893)

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Jules Ferry (Saint-Dié-des-Vosges, 5 de Abril de 1832 – Paris, 17 de Março de 1893) foi um advogado, jornalista, diplomata e político francês, uma das figuras centrais da Terceira República. Um republicano, maçom, positivista e anticlerical, foi por três vezes ministro da Instrução Pública (Ministre de l'Instruction Publique) e o principal responsável pelas leis que tornaram o ensino primário francês laico (ou seja, religiosamente neutro), gratuito (lei de 16 de Junho de 1881) e obrigatório (lei de 28 de Março de 1882). Enquanto ministro, também promoveu a dissolução das congregações religiosas não autorizadas ao ensino, entre as quais a dos jesuítas, e apoiou a criação do primeiro ensino secundário público para raparigas. Ferry foi um adepto das ideias positivistas de Auguste Comte, que o inspiraram nas suas reformas do sistema educativo francês.

Sob os seus governos, a França expandiu de forma significativa o seu império colonial em África e no Sudeste Asiático, nomeadamente com o estabelecimento do protetorado francês na Tunísia e a conquista do Tonquim e do Anam. Ferry defendeu publicamente esta política numa argumentação económica, geopolítica e de pretensa hierarquia entre povos, hoje amplamente criticada e contestada já na época por opositores como Georges Clemenceau.

Ocupou o cargo de Presidente do Conselho de Ministros da França em duas ocasiões, entre 1880 e 1881 (Gabinete Ferry I) e entre 1883 e 1885 (Gabinete Ferry II), sendo neste segundo período também ministro dos Negócios Estrangeiros.

Jules Ferry nasceu numa família burguesa e abastada de Saint-Dié-des-Vosges. O pai, Charles-Édouard Ferry, era advogado e livre-pensador, e proporcionou ao filho uma educação clássica e de cariz agnóstico, marcada pela influência do positivismo de Auguste Comte. Estudou no colégio de Saint-Dié até 1846 e, depois, no liceu de Estrasburgo. Instalou-se em Paris em 1850, onde concluiu o bacharelato e frequentou a faculdade de direito, tendo sido admitido na Ordem dos Advogados de Paris em 1855. Nesse mesmo ano, um discurso seu intitulado De l'influence des idées philosophiques sur le barreau au XVIIIe siècle revelou já as suas convicções republicanas.

Enquanto exercia advocacia, Ferry construiu reputação como crítico do regime do Segundo Império, publicando artigos no jornal Le Temps entre 1867 e 1868 em que atacava a administração parisiense do barão Haussmann. Estes artigos foram reunidos no panfleto Les Comptes fantastiques d'Haussmann (1868), que teve grande repercussão na opinião pública.

Guerra Franco-Prussiana e prefeitura de Paris

Durante a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871), Ferry administrou o departamento do Sena com poderes de prefeito, tendo sido nomeado prefeito de Paris em novembro de 1870. A sua gestão da capital durante o cerco de Paris, marcada pela escassez de alimentos, valeu-lhe a alcunha de "Ferry-la-Famine" ("Ferry-a-Fome"), que o acompanhou pelo resto da vida.

Ascensão política e chefia do governo

Ferry foi deputado pelo Sena entre 1869 e 1870 e, depois, pelo departamento dos Vosges a partir de 1871, sendo reeleito sucessivamente até à sua morte. Foi ministro plenipotenciário da França na Grécia entre 1872 e 1873 e ministro da Instrução Pública em três ocasiões: de fevereiro de 1879 a setembro de 1880, de janeiro a agosto de 1882 e de fevereiro a novembro de 1883. Presidiu ao Conselho de Ministros entre setembro de 1880 e novembro de 1881, e novamente entre fevereiro de 1883 e março de 1885, acumulando neste segundo mandato a pasta dos Negócios Estrangeiros a partir de novembro de 1883.

Como ministro da Instrução Pública, Ferry conduziu um conjunto de reformas assentes em três princípios: gratuidade, obrigatoriedade e laicidade. A lei de 16 de junho de 1881 tornou gratuito o ensino primário público e a lei de 28 de março de 1882 tornou-o obrigatório, entre os seis e os treze anos, e laico. Em 1879, Ferry apresentou também um projeto de lei cujo artigo 7.º proibia os membros de congregações religiosas não autorizadas de lecionar, medida que afetou cerca de quinhentas congregações, entre as quais os jesuítas e os dominicanos, e que enfrentou forte resistência no Senado. Enquanto ministro, apoiou ainda a aprovação da lei de 21 de dezembro de 1880, da iniciativa do deputado Camille Sée, que criou o primeiro ensino secundário público para raparigas em França, e promoveu a criação, em 1881, da Escola Normal Superior de Sèvres, destinada à formação de professoras.

Os dois governos de Ferry marcaram uma fase de forte expansão colonial francesa. Em 1881, a França impôs um protetorado sobre a Tunísia através do Tratado de Bardo. Durante o seu segundo governo, a França consolidou a presença no Congo Francês, iniciou a ocupação de Madagáscar e travou a Guerra Sino-Francesa (1883-1885), que assegurou o protetorado francês sobre o Anam e o Tonquim, integrados mais tarde na Indochina Francesa.

Num discurso à Câmara dos Deputados em 28 de julho de 1885, Ferry justificou a expansão colonial com três ordens de razões: a necessidade de novos mercados para a indústria francesa, um pretenso "dever de civilização" das "raças superiores" perante as "raças inferiores" e o risco de decadência política caso a França se mantivesse afastada da corrida colonial europeia. O discurso foi duramente contestado por Georges Clemenceau e por outros deputados, que refutaram tanto os argumentos económicos como os pressupostos humanitários invocados.

O seu segundo governo caiu em 30 de março de 1885, no dia seguinte à notícia da retirada das tropas francesas de Lang Son, no Tonquim, que provocou grande manifestação popular em frente à Câmara dos Deputados e levou à sua demissão. O episódio valeu a Ferry a alcunha de "Ferry le Tonkinois".

Atentado de 1887 e duelo com Boulanger

Em 10 de dezembro de 1887, Ferry foi vítima de um atentado por parte de um homem chamado Aubertin, que o atingiu a tiro na sala da Rotonda da Assembleia Nacional, em Paris. Nesse mesmo período, Ferry, opositor do general Boulanger, duelou com ele.

Ferry foi eleito senador pelos Vosges em 4 de janeiro de 1891. Em 24 de fevereiro de 1893, foi eleito presidente do Senado da França, tomando posse em 27 de fevereiro, em sucessão de Philippe-Élie Le Royer. Morreu em Paris, em 17 de março de 1893, com 61 anos, vítima de uma crise cardíaca durante a noite seguinte a uma sessão do Senado que tinha presidido, tendo exercido a presidência daquela câmara durante apenas cerca de três semanas. Foram-lhe prestadas exéquias nacionais, e sucedeu-lhe na presidência do Senado Paul Challemel-Lacour.

Ferry casou em 1875 com Eugénie Risler, e nesse mesmo ano foi iniciado na maçonaria.

Jules Ferry é geralmente considerado o "pai da escola laica" francesa, e as leis escolares que promulgou continuam a ser um dos pilares do sistema de ensino público em França. A sua figura é, no entanto, também controversa, devido ao papel central que desempenhou na expansão colonial francesa e à justificação explícita que deu a essa política com base numa hierarquia entre povos, contestada já pelos seus contemporâneos e amplamente criticada pela historiografia posterior. O seu nome foi dado a numerosas ruas, escolas e liceus em França, bem como a uma estação do metropolitano de Paris.

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