O Comissariado do Povo para Assuntos Internos (em russo: Народный комиссариат внутренних дел; romaniz.: Narodnyy komissariat vnutrennikh del, IPA: [nɐˈrodnɨj kəmʲɪsərʲɪˈat ˈvnutrʲɪnʲɪɣ dʲel]), abreviado como NKVD (em russo: НКВД; ), foi ao mesmo tempo o ministério do interior e a polícia secreta da União Soviética de 1934 a 1946. A agência foi formada para suceder a organização de polícia secreta Diretório Político do Estado Unificado (OGPU) e, assim, detinha o monopólio das funções de inteligência e segurança do Estado. O NKVD é conhecido por executar a repressão política e o Grande Expurgo sob Josef Stalin, bem como por realizar contraespionagem e outras operações na Frente Oriental da Segunda Guerra Mundial. O NKVD foi chefiado por Guenrikh Iagoda de 1934 a 1936, Nikolai Yezhov de 1936 a 1938, Lavrenti Beria de 1938 a 1946 e Sergei Kruglov em 1946.
Criado pela primeira vez em 1917 como o NKVD da RSFS da Rússia, o comissariado era encarregado do trabalho policial regular e da supervisão das prisões e dos campos de trabalho do país. Foi extinto em 1930, e suas funções foram distribuídas entre outras agências antes de ser restabelecido como um comissariado da União Soviética em 1934. Durante o Grande Expurgo, entre 1936 e 1938, por ordens de Stalin, o NKVD realizou prisões em massa, encarceramentos, torturas e execuções de centenas de milhares de cidadãos soviéticos. A agência enviou milhões ao sistema Gulag de campos de trabalho forçado e, durante a Segunda Guerra Mundial, realizou as deportações em massa de centenas de milhares de poloneses, bálticos e romenos, além de milhões de integrantes de minorias étnicas do Cáucaso, para áreas remotas do país, o que resultou em milhões de mortes. Centenas de milhares de integrantes do NKVD serviram em divisões das Tropas Internas em batalhas defensivas ao lado do Exército Vermelho, bem como em "formações de bloqueio", impedindo retiradas. A agência foi responsável por assassinatos no exterior, incluindo o de Leon Trótski.
Durante parte de 1941 e de 1943 a 1946, as funções de polícia secreta foram separadas e atribuídas ao Comissariado do Povo para a Segurança do Estado (NKGB). Em março de 1946, os Comissariados do Povo passaram a ser denominados ministérios; o NKVD tornou-se o Ministério do Interior (MVD), e o NKGB tornou-se o Ministério da Segurança do Estado (MGB).
Após a Revolução de Fevereiro russa de 1917, o Governo provisório dissolveu a polícia czarista e criou as Milícias Populares. A subsequente Revolução de Outubro russa de 1917 resultou numa tomada do poder estatal liderada por Lenin e pelos bolcheviques, que estabeleceram um novo regime bolchevique, a República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR). O Ministério do Interior (MVD) do Governo Provisório, anteriormente dirigido por Georgy Lvov (desde março de 1917), depois por Nikolai Avksentiev (desde 6 de agosto de 1917 (24 de julho no calendário juliano)) e por Alexei Niketan (desde 8 de outubro de 1917 (25 de setembro no calendário juliano)), transformou-se no NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), sob a direção de um Comissário do Povo. Entretanto, o aparelho do NKVD estava sobrecarregado pelas funções herdadas do MVD, como a supervisão dos governos locais e o combate a incêndios, e as Milícias de Operários e Camponeses, formadas por proletários, eram em grande parte inexperientes e pouco qualificadas. Percebendo que havia ficado sem uma força de segurança capaz, o Conselho de Comissários do Povo da RSFSR criou, em 20 de dezembro de 1917 (7 de dezembro no calendário juliano), uma polícia política secreta, a Tcheka, dirigida por Félix Dzerjinski. Ela recebeu o direito de realizar julgamentos sumários extrajudiciais e execuções quando isso fosse considerado necessário para "proteger a revolução socialista-comunista russa".
A Tcheka foi reorganizada em 1922 como o Diretório Político do Estado, ou GPU, do NKVD da RSFSR. Em 1922, formou-se a URSS, tendo a RSFSR como seu maior membro. A GPU tornou-se o OGPU (Diretório Político do Estado Unificado), subordinado ao Conselho de Comissários do Povo da URSS. O NKVD da RSFSR manteve o controle da militsiya e de diversas outras atribuições.
Em 1934, o NKVD da RSFSR foi transformado numa força de segurança de toda a URSS, o NKVD (que os dirigentes do Partido Comunista da União Soviética logo passaram a chamar de "destacamento dirigente do nosso partido"), e a OGPU foi incorporada ao NKVD como Diretoria Principal de Segurança do Estado (GUGB); o NKVD separado da RSFSR só voltou a existir em 1946 (como MVD da RSFSR). Como resultado, o NKVD também assumiu o controle de todas as instalações de detenção (incluindo os campos de trabalho forçado, conhecidos como gulags), assim como da polícia regular. Em diferentes períodos, o NKVD teve as seguintes Diretorias Principais, abreviadas como "ГУ" — Главное управление, Glavnoye upravleniye.
ГУГБ – государственной безопасности, de Segurança do Estado (GUGB, Glavnoye upravleniye gosudarstvennoi bezopasnosti)
ГУРКМ – рабоче-крестьянской милиции, da Milícia de Operários e Camponeses (GURKM, Glavnoye upravleniye raboče-krest'yanskoi militsyi)
ГУПВО – пограничной и внутренней охраны, de Guardas de Fronteira e Internos (GUPVO, GU pograničnoi i vnytrennei okhrany)
ГУПО – пожарной охраны, dos Serviços de Combate a Incêndios (GUPO, GU požarnoi okhrany)
ГУШосДор – шоссейных дорог, de Rodovias (GUŠD, GU šosseynykh dorog)
ГУЖД – железных дорог, de Ferrovias (GUŽD, GU železnykh dorog)
ГУЛаг– Главное управление исправительно-трудовых лагерей и колоний, dos Campos de Trabalho Correcional (Gulag, Glavnoye upravleniye lagerey i kolonii)
ГЭУ – экономическое, de Economia (GEU, Glavnoye ekonomičeskoie upravleniye)
ГТУ – транспортное, de Transportes (GTU, Glavnoye transportnoie upravleniye)
ГУВПИ – военнопленных и интернированных, de prisioneiros de guerra e internados (GUVPI, Glavnoye upravleniye voyennoplennikh i internirovannikh)
Em 1934, 38,5% (36 quadros) da liderança do NKVD eram judeus, que dirigiam sete de seus dez principais departamentos. Os demais eram russos, que constituíam 31,3% (30); letões, 7% (7); ucranianos, 5,2% (5); poloneses, 4,2% (4); georgianos, 3% (3); bielorrussos, 3%; alemães, 2%; e outros, 5%. Em 1937, a composição havia mudado ligeiramente para 37,8% de judeus, 31,5% de russos e 7,2% de letões, além de outros grupos; doze das vinte diretorias principais eram chefiadas por judeus, assim como sete dos dez departamentos principais.
Após 1938, durante o Terceiro Plano Quinquenal e a destituição de Yezhov da chefia do NKVD, a proporção de judeus caiu drasticamente na organização, representando apenas 3,9% de seus quadros dirigentes em 1939.