Nair de Teffé von Hoonholtz (Petrópolis, 10 de junho de 1886 – Niterói, 10 de junho de 1981), conhecida profissionalmente pelo pseudônimo Rian e, depois do casamento, também como Nair de Teffé Hermes da Fonseca, foi uma caricaturista, pintora, atriz, pianista, escritora e promotora cultural brasileira. É reconhecida como a primeira mulher a publicar regularmente caricaturas na imprensa brasileira, atividade que exerceu em um meio profissional até então predominantemente masculino.
Filha do almirante Antônio Luís von Hoonholtz, barão de Teffé, Nair passou parte da infância e da juventude na Europa, onde recebeu formação artística. De volta ao Brasil, adotou o pseudônimo Rian, formado pela inversão das letras de seu primeiro nome, e publicou em 1909, na revista Fon-Fon, a caricatura da atriz francesa Réjane. Posteriormente, colaborou com periódicos brasileiros e franceses, retratando artistas, integrantes das elites sociais, diplomatas e personalidades políticas.
Em 8 de dezembro de 1913, casou-se com o então presidente Hermes da Fonseca e tornou-se primeira-dama do Brasil durante o último ano do mandato presidencial. No Palácio do Catete, promoveu reuniões artísticas e musicais que procuravam aproximar formas de cultura popular dos espaços oficiais. A mais conhecida ocorreu em 26 de outubro de 1914, quando executou ao violão o tango brasileiro Gaúcho, popularmente chamado de Corta-Jaca, de Chiquinha Gonzaga. A apresentação provocou a reação de setores conservadores e um discurso de condenação de Rui Barbosa no Senado.
Depois da Presidência, participou das disputas políticas que antecederam a eleição de 1922 e acompanhou Hermes da Fonseca durante a crise que culminou em sua prisão. Viúva desde 1923, desenvolveu atividades teatrais e beneficentes, dirigiu uma associação literária em Petrópolis, manifestou-se favoravelmente à participação das mulheres na política e idealizou o Cinema Rian, inaugurado em Copacabana em 1942. Nas décadas de 1950 e 1960, voltou a produzir caricaturas e colaborou para a preservação de sua obra em instituições como o Museu Histórico Nacional.
Nair era filha de Antônio Luís von Hoonholtz e Maria Luísa Dodsworth von Hoonholtz, barões de Teffé. Seu pai foi almirante da Marinha do Brasil, herói da Guerra do Paraguai, senador da República, esteve ligado à organização da Repartição Hidrográfica da Marinha e representou o Brasil em missões diplomáticas na Europa. Nair tinha três irmãos, Álvaro, Oscar e Otávio, e cresceu em uma família integrada aos círculos militares, diplomáticos e intelectuais dos últimos anos do Império e do começo da República.
Pelo lado paterno, era neta do aristocrata prussiano Frederico Guilherme von Hoonholtz, engenheiro, mineralogista e militar que serviu no Brasil, tornando-se posteriormente um empresário de sucesso neste país. Pelo lado materno, pertencia à família Dodsworth e era sobrinha do 2.º barão de Javary e prima-irmã da condessa de Frontin, D. Maria Leocádia Dodsworth de Frontin, esposa do engenheiro Paulo de Frontin, conde de Frontin. Essas relações familiares contribuíram para sua circulação por ambientes diplomáticos e culturais, mas também fizeram com que suas escolhas profissionais fossem observadas à luz das expectativas sociais dirigidas às mulheres das elites do período.
Ainda criança, acompanhou a família nas viagens decorrentes da carreira diplomática do pai. Em 1887, os Teffé estabeleceram-se em Paris. Após uma passagem pelo Brasil, transferiram-se para Roma e, em 1894, Nair foi matriculada no convento da Assunção, em Nice. Frequentou posteriormente o Cours Vivaudy e recebeu uma educação que abrangia idiomas, literatura, música e desenho.
Em Paris, estudou pintura com Madame Lavrut e frequentou cursos de desenho, incluindo aulas de modelo vivo associadas à Academia Julian. A formação europeia colocou-a em contato com a tradição francesa da caricatura, com revistas ilustradas e com um ambiente artístico em que o desenho humorístico constituía uma forma de comentário sobre a sociedade e a política. Retornou ao Brasil no final de 1905, estabelecendo-se com a família em Petrópolis.
Ao voltar ao Brasil, Nair começou a desenhar pessoas de seu círculo social. O pseudônimo Rian era um anagrama de Nair e também permitia uma associação humorística com a palavra francesa rien, que significa “nada”. O nome artístico ajudava a separar a caricaturista da identidade familiar e aristocrática sob a qual era conhecida socialmente.
A amiga e mecenas Laurinda Santos Lobo esteve entre as pessoas que a incentivaram a apresentar publicamente os desenhos. Antes de conquistar espaço permanente nos periódicos, Nair expôs caricaturas em vitrines de estabelecimentos comerciais da região central do Rio de Janeiro, entre os quais a Casa David e a Chapelaria Watson, na Rua do Ouvidor. As exibições permitiam que os trabalhos fossem observados por um público mais amplo numa época em que galerias e salões profissionais permaneciam pouco acessíveis às mulheres.
A primeira caricatura conhecida publicada por Rian foi um retrato da atriz francesa Réjane, divulgado na edição de 31 de julho de 1909 da revista Fon-Fon. A publicação é considerada um marco na história da imprensa ilustrada brasileira por representar a entrada regular de uma mulher em uma atividade até então exercida quase exclusivamente por homens.
Para João do Rio, Rian é um pequeno demônio que ri:
é a encantadora menina impertinente dos salões e dos teatros, tão querida e tão estimada. Há, porém, ao lado dessa criança de olhos azuis e o ar de uma petite fille de Lawrence, de uma pequena primavera à maneira dos pintores inglêses do comêço do século passado, um pequeno demônio que ri, um pequeno demônio leve como Ariel, que entre rosas fixa uma sociedade até então incólume, êsse demônio não é a encantadora criança de olhos azuis, é o terrível Rian.
Depois da estreia, Rian colaborou com revistas e jornais como O Binóculo, Careta, O Malho, Ken, Fon-Fon, Revista da Semana, Gazeta de Notícias e Gazeta de Petrópolis. Seus trabalhos também circularam na França, em publicações como Le Rire, Excelsior, Fémina e Fantasio, fato incomum para uma artista brasileira no início do século XX.
Em agosto de 1910, a Fon-Fon apresentou a seção “Galeria das Elegâncias”, dedicada a caricaturas de mulheres da sociedade carioca produzidas por Rian. As imagens eram acompanhadas por legendas elaboradas pelos editores, frequentemente elogiosas, que procuravam atenuar o componente crítico e a deformação próprios do gênero. A solução editorial revelava o desconforto que a caricatura podia causar entre mulheres acostumadas às convenções idealizadas do retrato social.
Seu repertório não se limitava a figuras femininas. Rian retratou escritores, atores, músicos, diplomatas e políticos. A simplificação das formas, o destaque dado a elementos físicos característicos e o uso do lápis de cor ou do pastel permitiam reconhecer rapidamente a personalidade representada. Embora muitas obras tivessem caráter social, outras aproximavam-se da caricatura política e transformavam o desenho em forma de intervenção nos debates públicos.
A presença de uma mulher caricaturando integrantes das elites produzia uma inversão das relações tradicionais entre observador e observado. Em vez de aparecer apenas como objeto de representação, Rian assumia o papel de autora e intérprete visual da sociedade. Estudos posteriores situaram esse aspecto de sua obra entre as primeiras formas de inserção feminina no humor gráfico e na charge política do Brasil.
Teatro, música e atividades beneficentes