Nelson José Pinto Freire, 18 de outubro de 1944 - 1 de novembro de 2021) foi um pianista clássico brasileiro.
Menino prodígio nascido em Minas Gerais, Freire estudou no Rio de Janeiro e em Viena antes de vencer o Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em 1964. Seu repertório ia de Bach e Beethoven a Chopin, Schumann, Brahms, Debussy, Liszt e compositores brasileiros. A música romântica ocupou boa parte de seus concertos e gravações.
Apresentou-se com orquestras da Europa, das Américas e da Ásia, trabalhando com regentes como Pierre Boulez, Riccardo Chailly, Charles Dutoit, Valery Gergiev, Eugen Jochum, Lorin Maazel, Kurt Masur, Seiji Ozawa e André Previn. Martha Argerich foi uma de suas amigas mais próximas e sua parceira mais frequente em duos de piano.
Freire gravou para a CBS/Columbia, Sony, Teldec, Philips, Decca, Deutsche Grammophon e Berlin Classics. Suas gravações receberam o Edison Award, o Gramophone Award, o Diapason d'or, o ECHO Klassik e um Grammy Latino. Foi indicado três vezes ao Grammy.
Freire nasceu em Boa Esperança, em Minas Gerais, em 18 de outubro de 1944. Havia um piano na casa da família e, ainda pequeno, começou a tocar de ouvido, imitando as músicas executadas pela irmã mais velha, Nelma. Biografias de concertos costumam situar o início de seus estudos de piano aos três anos, embora o próprio Freire tenha recordado mais tarde que começou a tocar aos quatro. Sua primeira apresentação pública ocorreu ainda na infância, quando tocou a Sonata para piano em lá maior, K. 331, de Mozart.
Antes de a família se mudar para o Rio de Janeiro, Freire viajava uma vez por semana para estudar com um professor que morava a algumas horas de Boa Esperança. Pouco depois, o professor disse aos pais que o menino precisava de uma formação mais avançada no Rio, então capital do Brasil. A família mudou-se para a cidade quando ele tinha cerca de seis anos. Seu pai deixou a farmácia que mantinha em Boa Esperança e passou a trabalhar em um banco para que Freire pudesse continuar os estudos no Rio.
No Rio de Janeiro, Freire estudou com Lúcia Branco e Nise Obino. Branco havia sido aluna de Arthur De Greef, que por sua vez estudara com Franz Liszt. Obino tinha sido aluna e assistente de Branco. Freire creditou mais tarde a Obino a reconstrução de sua técnica desde o princípio, inclusive a posição das mãos no teclado. Ele se lembrava dela como a professora que mais transformou sua maneira de tocar na infância. Seus pais também o mantiveram no ensino regular. Freire recordava que praticava apenas algumas horas por dia, sem passar a infância inteira ao piano.
Em 1957, aos doze anos, Freire tocou o Concerto para piano n.º 5, o "Imperador", de Beethoven, no Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro. Competindo com pianistas mais velhos, chegou à fase final. A apresentação lhe valeu uma bolsa do governo brasileiro para estudar no exterior. Escolheu Viena para estudar com Bruno Seidlhofer, que também teve entre seus alunos Friedrich Gulda.
Freire partiu para Viena aos catorze anos. Viajou com Seidlhofer e, pela primeira vez, viveu fora do Brasil sem os pais. Em Viena conheceu Martha Argerich, que se tornaria sua amiga por toda a vida e parceira musical.
Início da carreira internacional
Freire começou a se apresentar internacionalmente em 1959, ainda adolescente. Seus primeiros compromissos o levaram pela Europa, Estados Unidos, América Central e América do Sul, além de Japão e Israel. Em 1964, dividiu com Vladimir Krainev o primeiro lugar no Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta, em Lisboa. Também recebeu em Londres as medalhas Dinu Lipatti e Harriet Cohen.
A vitória em Lisboa abriu uma sequência regular de compromissos no exterior. Freire substituiu Alexander Brailowsky no México e fez seus primeiros concertos na Espanha em 1965, passando por Valência, Elche, Madri e Las Palmas de Gran Canaria. Estreou em Londres aos 23 anos e, no ano seguinte, apresentou-se em Nova York com a Orquestra Filarmônica de Nova Iorque. Transmissões de concertos e relançamentos de apresentações daqueles anos incluem obras de Beethoven, Schumann, Chopin, Grieg, Liszt, Tchaikovsky, Rachmaninoff e Prokofiev.
Orquestras, regentes e recitais
Nas décadas seguintes, Freire alternou recitais solo, concertos com orquestra e música de câmara. Na Europa, tocou com a Orquestra Filarmônica de Berlim, Orquestra do Gewandhaus de Leipzig, Orquestra Filarmônica de Munique, Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara, Deutsches Symphonie-Orchester Berlin, Orquestra Real do Concertgebouw, Orquestra Filarmônica de Roterdã, Orquestra Sinfônica Nacional Dinamarquesa, Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, Orquestra Tonhalle de Zurique, Orquestra Sinfônica de Viena, Orquestra Filarmônica Real, Orquestra Sinfônica de Londres, BBC Scottish Symphony Orchestra, BBC Symphony Orchestra, Orquestra Filarmônica Tcheca, Orquestra Nacional da França, Orquestra de Paris, Orchestre National du Capitole de Toulouse, Orchestre Philharmonique de Radio France e Orchestre de la Suisse Romande.
Nas Américas, apresentou-se com a Orquestra Sinfônica de Baltimore, Orquestra Sinfônica de Boston, Orquestra Sinfônica de Chicago, Orquestra de Cleveland, Orquestra Filarmônica de Los Angeles, Orquestra Sinfônica de Montreal, Orquestra Filarmônica de Nova Iorque e Orquestra de Filadélfia. Também tocou com a Orquestra Filarmônica de Israel, a Orquestra Filarmônica de Seul e a Orquestra Sinfônica NHK, de Tóquio.
Entre os regentes com quem trabalhou estavam Pierre Boulez, Riccardo Chailly, Myung-whun Chung, Colin Davis, Charles Dutoit, Valery Gergiev, Eugen Jochum, Rafael Kubelík, Rudolf Kempe, Fabio Luisi, Lorin Maazel, Kurt Masur, Ingo Metzmacher, Václav Neumann, Seiji Ozawa, André Previn, Yuri Temirkanov e David Zinman. Freire percorreu os Estados Unidos e a Alemanha com Kempe e a Orquestra Filarmônica Real. Em entrevistas posteriores, falou com apreço sobre seu trabalho com Chailly, Gergiev e Temirkanov.
Seus programas de recital transitavam entre obras clássicas e românticas, compositores franceses e russos e música brasileira. Um recital em Miami, em 1984, reuniu Mozart, Chopin e Debussy com Villa-Lobos, Albéniz, Godowsky e Rachmaninoff. Em um recital no Concertgebouw pelos seus 75 anos, tocou Scarlatti, Godowsky, Handel, Brahms, Liszt e Grieg. Peças curtas apareciam com frequência ao lado de grandes sonatas e outras obras mais extensas, além de serem usadas como bis.
Festivais, concursos e apresentações públicas