Pierre Isaac Isidore Mendès France (Paris, 11 de janeiro de 1907 – Paris, 18 de outubro de 1982) foi um advogado e político francês, uma das figuras mais marcantes da vida pública francesa do século XX. Deputado radical-socialista pelo departamento do Eure entre 1932 e 1940, foi subsecretário de Estado do Tesouro no segundo governo de Léon Blum em 1938 e, depois de ter escapado de uma condenação por deserção imposta pelo regime de Vichy, serviu como navegador na aviação das Forças Aéreas Francesas Livres e exerceu funções de comissário das Finanças e, mais tarde, ministro da Economia Nacional nos governos presididos pelo general Charles de Gaulle entre 1943 e 1945.
Ocupou o cargo de presidente do Conselho de Ministros — título correspondente, na época, ao de primeiro-ministro — entre 18 de junho de 1954 e 23 de fevereiro de 1955, tendo acumulado a pasta dos Negócios Estrangeiros nos primeiros meses do mandato. Nesse curto governo de pouco mais de sete meses, negociou os Acordos de Genebra que puseram fim à Guerra da Indochina, anunciou, no discurso de Cartago, a concessão de autonomia interna à Tunísia e recusou submeter ao parlamento francês a ratificação da Comunidade Europeia de Defesa, tendo ainda lançado uma campanha contra o alcoolismo infantil que ficou associada à promoção do consumo de leite nas escolas francesas. O seu governo foi derrubado pela Assembleia Nacional na noite de 4 para 5 de fevereiro de 1955, na sequência de um debate sobre a política francesa no Norte de África.
Opositor ao regresso ao poder do general de Gaulle em 1958, aproximou-se progressivamente do socialismo democrático, tendo integrado sucessivamente o Partido Socialista Autónomo e o Partido Socialista Unificado. Descendente de uma família judaica de origem sefardita cujas raízes a própria família fazia remontar a Portugal, ficou associado ao chamado "mendesismo", corrente de pensamento que defendia a modernização económica, o rigor orçamental e uma prática mais direta e transparente da democracia.
Mendès France nasceu em Paris, filho de Cerf Mendès France, comerciante, e de Palmyre Cahn. Aluno precoce, obteve o baccalauréat aos quinze anos e publicou o seu primeiro artigo na revista L'Université de Paris. Estudou direito e ciências políticas em Paris, incluindo na Escola Livre de Ciências Políticas (1923-1925), tendo aderido nessa época ao Partido Radical e à Liga de Ação Universitária Republicano-Socialista. Tornou-se, em 1926, o advogado mais jovem de França e defendeu, em 1928, uma tese de doutoramento em direito sobre a política financeira de Raymond Poincaré. Integrou a corrente reformista dos "jovens turcos" do radicalismo, ao lado de Jean Zay e Pierre Cot.
Ascendência sefardita portuguesa
Mendès France interessou-se pessoalmente pela genealogia da sua família, tendo, segundo o seu biógrafo Jean Lacouture, feito remontar os "Mendes França" a Portugal desde o início do século XVI. De acordo com essa investigação familiar, os antepassados da família terão deixado Portugal no contexto das perseguições e conversões forçadas movidas contra a comunidade judaica portuguesa a partir do decreto de expulsão de dezembro de 1496, dispersando-se depois por vários pontos da Europa ao longo de sucessivas gerações até chegarem a França.
Advocacia e ascensão parlamentar (1929-1940)
Estabeleceu escritório de advocacia em Louviers, na Normandia, e publicou, em 1930, o ensaio La Banque internationale, em que defendia uma maior integração económica europeia através de instituições bancárias comuns. Em 1932, foi eleito deputado pelo departamento do Eure, tornando-se o deputado mais jovem de França, e foi eleito presidente da câmara municipal de Louviers em 1935, cargo que voltaria a ocupar entre 1945 e 1958. Casou em 1933 com Lily Cicurel, com quem teve dois filhos, Bernard (1934) e Michel (1936). Em março de 1938, foi nomeado subsecretário de Estado do Tesouro no segundo governo de Léon Blum, período em que colaborou com o economista Georges Boris na elaboração de um dos primeiros planos franceses de recuperação económica com intervenção do Estado.
Segunda Guerra Mundial: o caso Massilia e o processo de Clermont-Ferrand
Tenente da reserva na aviação, Mendès France embarcou em 19 de junho de 1940 no navio Massilia, juntamente com cerca de uma centena de parlamentares franceses, com destino a Marrocos, na expectativa de continuar a resistência a partir do Norte de África. Quando o novo governo do marechal Pétain decidiu pedir o armistício, recusou-se a regressar a França e reincorporou a sua unidade aérea em Marrocos. Foi preso em 31 de agosto de 1940 na prisão militar de Casablanca e transferido, em 12 de outubro seguinte, para a prisão militar de Clermont-Ferrand, onde encontrou o também deputado Jean Zay. Julgado em 9 de maio de 1941 pelo tribunal militar de Clermont-Ferrand, sob acusação de deserção, foi condenado a seis anos de prisão, com perda de patente e privação de direitos civis e cívicos por dez anos, apesar de depoimentos favoráveis de superiores hierárquicos. Após o indeferimento do recurso de cassação, evadiu-se em 21 de junho de 1941 do hospital-prisão de La Providence, serrando as grades de uma janela.
Serviço na França Livre e comissariado das Finanças (1942-1945)
Mendès France chegou a Londres, via Suíça e Portugal, em fevereiro de 1942, e apresentou-se ao general de Gaulle pedindo para retomar imediatamente o combate. Serviu como navegador em missões de bombardeamento das Forças Aéreas Francesas Livres entre o outono de 1942 e 1943. Em 9 de novembro de 1943, foi nomeado comissário das Finanças do Comité Francês de Libertação Nacional, sedeado em Argel, função que manteve, já como ministro da Economia Nacional, no Governo Provisório da República Francesa entre 4 de setembro de 1944 e 6 de abril de 1945. Neste cargo, defendeu uma política de rigor orçamental e de controlo de preços e do crédito, em oposição à orientação mais liberal preconizada por René Pleven, e integrou a delegação francesa à conferência de Bretton Woods; a rejeição do seu plano de estabilização financeira levou-o a apresentar a demissão.
Entre dois mandatos: oposição e organismos internacionais (1946-1954)
Reeleito deputado do Eure na Assembleia Constituinte e, depois, na Assembleia Nacional da Quarta República, Mendès France representou a França como administrador executivo no Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento e como governador junto do Fundo Monetário Internacional até 1959. A partir de outubro de 1950, criticou publicamente na Assembleia Nacional o custo crescente da Guerra da Indochina para as finanças e para o prestígio internacional de França, defendendo que apenas uma solução política, e não militar, poderia pôr-lhe termo, posição que reiterou num célebre discurso parlamentar de 3 de junho de 1953.
Governo Mendès France (1954-1955)
Investidura e fim da Guerra da Indochina
Na sequência da derrota francesa na Batalha de Dien Bien Phu, em 7 de maio de 1954, e da queda do governo de Joseph Laniel, Mendès France obteve a investidura como presidente do Conselho em 18 de junho de 1954, por 419 votos contra 47, comprometendo-se publicamente a alcançar um cessar-fogo na Indochina no prazo de trinta dias, sob pena de se demitir. Assumiu diretamente a liderança da delegação francesa na Conferência de Genebra, sucedendo a Georges Bidault, e concluiu, em 21 de julho de 1954, os Acordos de Genebra, que estabeleceram uma linha de demarcação para o Vietname ao longo do paralelo 17, ladeada por uma zona desmilitarizada de cinco quilómetros, e reconheceram a independência do Laos e do Camboja. Os acordos previam eleições gerais até julho de 1956 para a reunificação do Vietname, que acabariam por não se realizar.
Em 31 de julho de 1954, Mendès France deslocou-se a Cartago e anunciou, perante o bei da Tunísia, o reconhecimento da autonomia interna do protetorado, declarando que essa autonomia era "reconhecida e proclamada sem segundas intenções pelo governo francês", ao mesmo tempo que reservava à França o controlo da defesa e da política externa tunisinas. As negociações então iniciadas só se traduziriam nas convenções de autonomia interna assinadas em 3 de junho de 1955, já sob o governo de Edgar Faure.