Roger David Casement (em irlandês: Ruairí Mac Easmainn; Dublin, 1 de setembro de 1864 Londres, – 3 de agosto de 1916), foi um patriota, poeta, revolucionário e nacionalista irlandês.
Casement era filho do Capitão Roger Casement, do 3º batalhão de Guardas-dragões do exército britânico, e de Anne Jephson, que o batizou secretamente na Igreja Católica; no entanto, ele foi educado como protestante, que era a crença de seu pai. Estudou na escola diocesana de Ballymena e, quando terminou os estudos, teve vários empregos na administração pública, incluindo missões em África. A partir de 1895 foi cônsul do Reino Unido em vários países africanos e, no Congo foi autorizado pelo governo britânico a investigar e relatar os abusos dos direitos humanos perpetrados contra os locais. Pelo seu relatório, recebeu a honra de Companheiro da Ordem de São Miguel e São Jorge em 1905. Foi depois cônsul em Santos, Pará e Rio de Janeiro, no Brasil, e ainda na bacia de Putumayo, no Peru, onde novamente denunciou os abusos dos direitos humanos por empresas de extração de borracha. O seu relatório sobre este assunto foi publicado pelo parlamento britânico e deu-lhe o reconhecimento internacional como humanista e o título de Cavaleiro (Sir).
Entretanto, Casement era membro da Liga Gaélica e, quando deixou o serviço consular, em 1911, se envolveu na fundação dos Voluntários Irlandeses que pretendiam o rompimento da Irlanda do Império Britânico. Quando a Primeira Guerra Mundial estalou, em 1914, Casement pensou que a Alemanha poderia ser um aliado da Irlanda e visitou aquele país para tentar arranjar apoio em armas e oficiais para uma insurreição armada. Quando se deu a Revolta da Páscoa, em 1916, Casement foi preso, julgado por traição, condenado e executado tendo, nessa altura, perdido a honraria de cavaleiro da Ordem de São Miguel e São Jorge.
Em 2010 o escritor peruano Mario Vargas Llosa, publica o livro O Sonho do Celta, biografia romanceada de Roger Casement.
Diplomata britânico e investigador de direitos humanos
O Congo e o Relatório Casement
Casement trabalhou no Congo para Henry Morton Stanley e para a Associação Internacional Africana a partir de 1884; esta associação tornou-se conhecida como uma fachada para o rei Leopoldo II da Bélgica em sua tomada de controle do que se tornou o chamado Estado Livre do Congo (E.I.C.). Casement trabalhou em um levantamento para melhorar as comunicações e recrutou e supervisor trabalhadores na construção de uma ferrovia para contornar os 350 quilômetros inferiores do Rio Congo, que se tornavam inavegáveis devido a cataratas, com o objetivo de melhorar o transporte e o comércio para o Alto Congo. Durante seu trabalho comercial, ele aprendeu línguas africanas.
Em 1890, Casement conheceu Joseph Conrad, que havia ido ao Congo para pilotar um navio mercante, Le Roi des Belges ("Rei dos Belgas"). Ambos foram inspirados pela ideia de que "a colonização europeia traria progresso moral e social ao continente e libertaria seus habitantes 'da escravidão, do paganismo e de outras barbáries'. Cada um logo aprenderia a gravidade de seu erro." Conrad publicou sua novela Coração das Trevas em 1899, explorando os males coloniais. Nesses anos formativos, Casement também conheceu Herbert Ward, e eles se tornaram amigos de longa data. Ward deixou a África em 1889 e dedicou-se a uma carreira nas artes e na escultura, produzindo obras centradas em temas e na cultura congolesa.
Já se passavam vários anos desde que o Foreign Office, em Londres — após os depoimentos do vice-cônsul Edward Bannister em Boma em 1894, e depois os relatórios de William Pickersgill e de Arthur Nightingale em 1895 e 1897 — desejava obter provas das atrocidades cometidas nos territórios do E.I.C. contra "trabalhadores" oriundos das colônias britânicas da África Ocidental.
Casement ingressou no Serviço Colonial, sob a autoridade do Ministério das Colônias, servindo inicialmente no exterior como escriturário na África Ocidental Britânica. Em 30 de abril de 1900, ele escreveu ao Foreign Office: Citação: A raiz do mal reside no fato de que o governo do Congo é, antes de tudo, um trust comercial, e que tudo o mais ali está subordinado à volúpia do lucro… Em agosto de 1901, ele se transferiu para o serviço do Foreign Office como cônsul britânico na parte oriental do Congo Francês, enviando uma carta relatando as circunstâncias do caso Cyrus Smith com o seguinte comentário: Citação: O Soberano mantinha a Sociedade Antuérpia na palma de sua mão… e é impossível que ele ignore os métodos empregados por ela. O próprio Leopoldo II me disse em Bruxelas que era "o senhor do Congo".
Em 22 de maio de 1903, o Governo Balfour comissionou o cônsul Roger Casement, então lotado em Boma, para investigar a situação dos direitos humanos na colônia. Estabelecendo um exército privado conhecido como Force Publique, Leopoldo II extorquia receitas da população por meio de um regime de terror na colheita e exportação de borracha, enviando armas para reprimir os nativos. Ao obter autorização para se deslocar ao Alto Congo, a investigação de Casement teve início. Ele viajou por trem até Leopoldville, documentando-se com o missionário Thomas Morgan, da Congo Balolo Mission.
Em 2 de julho de 1903, deixou o Stanley Pool rumo a Tshumbiri, encontrando o missionário Arthur Billington; dos 5 000 habitantes que Casement vira na região em 1887, restavam apenas 500. Em Bolobo, constatou que a população local havia caído de 40 000 para cerca de 7 a 8 000 cidadãos. Subindo o rio até Mpoko, registrou duas novas práticas: Citação: o abate de africanos a tiros por um funcionário branco em pessoa, e a entrega de órgãos sexuais masculinos como prova do uso exclusivo de cartuchos contra homens. Seguiu para Lukolela, obtendo registros do missionário John Whitehead, e depois rumou ao Lago Tumba, passando 17 dias na missão de Joseph Clark em Ikoko. Ali, colheu informações detalhadas sobre massacres e abusos, incluindo os cometidos por Léon Fiévez entre 1893 e 1898.
Em 14 de novembro de 1903, enquanto Leopoldo II tentava atrair o Reino de Itália para sua causa a fim de desarmar os protestos britânicos, o médico italiano Hector Villa, residente no Congo, escreveu a Roma confirmando que as denúncias de Casement eram irrefutáveis e que o envio de militares italianos ao território deveria cessar.
Em 28 de dezembro de 1903, após semanas de entrevistas com nativos, feitores e mercenários na bacia superior do rio, Casement entregou seu longo relatório testemunhal ao Foreign Office. O documento detalhava a escravização, mutilação e tortura sistemática de homens, mulheres e crianças pelas forças do rei. Inicialmente impresso para uso interno na série Confidential Prints, o dossiê oficializou-se em fevereiro de 1904 como o Relatório Casement, sendo enviado às potências signatárias do Tratado de Berlim de 1885 (que outrora dera carta branca ao monarca).
A publicação provocou grande controvérsia; embora companhias com interesses comerciais e figuras como Alfred Lewis Jones contestassem os dados, a pressão internacional cresceu. Pressionado pelo líder socialista Émile Vandervelde e pelas conclusões irrefutáveis do relatório, Leopoldo foi forçado a aceitar uma comissão independente de inquérito que, em 1905, confirmou os abusos essenciais coletados por Casement. Em março de 1904, a opinião pública na Inglaterra organizou-se com a fundação da Congo Reform Association por E. D. Morel com apoio de Casement. Diante do colapso moral e administrativo, o parlamento belga assumiu a colônia em 15 de novembro de 1908, instituindo o Congo Belga.
Arquivo Roger Casement, Museu Real da África Central